6 de jun de 2013

Pertinho



                Na hora do almoço, bem no auge do rush, ali, na ponte que separa os bairros. Bem próximo à rodoviária. Olhou para um lado, mesmo a rua sendo de mão única, virou o pescoço para o outro. Ao reconhecer os dedos entrelaçados, sentiu imediatamente a face queimar. Um frio tomou o fundo da alma e atingiu tão rápido, quanto fogo em um rastro de pólvora, todo o resto do corpo. Durante os poucos passos que o casal deu em direção a Carlos Miguel, o relógio parou. O insolente rapaz se viu atravessando a rua e cruzando, propositalmente, com o caminhão de entrega. O sangue espirrando, os gritos pavorosos, porém, antes que o primeiro passo do casal terminasse, Carlos já havia regressado ao seu corpo e sentia o ponteiro dos segundos correrem tão lentos, se comparado diretamente aos batimentos de seu coração. No segundo passo lembrou-se dos últimos anos, dos choros, sorrisos, a viagem para o interior e até o primeiro porre juntos, buscou nos detalhes o momento em que se perde alguém. Num suspiro profundo, tentou em vão esquentar a espinha, buscava jogar fora o coração, as recordações. Durante o terceiro passo, presenciou a cena dos dois. Na cama durante a noite, depois de uma festa sem sentido, beijos, elogios fálicos ao membro alheio, coisas dos dois que agora pertenciam aos três, reviveu no frio todo o calor vindo dos gemidos sacanas, e, mais uma vez, num suspiro, quis abstrair tudo aquilo. Seguir seu caminho. Sem ser notado, invisível, exatamente como ele era pra ela. No quarto e quinto passo, Carlos Miguel estava em transe. Naquela calçada, com o rosto pegando fogo e a espinha gelada, ele viu passar alguém que pra ele foi muito, de mãos dadas a outro, sorrindo como se o mundo daqueles segundos em diante não ruísse em gelo e fogo.

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