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25 de set. de 2012

Carta de Korsakoff para seu pai



Os ipês floriram de novo. Eu não sei como andam as coisas aí na Ucrânia e sei que o senhor gosta de ipês, eu sinto falta do tempo gelado daí, mesmo que eu tenha passado poucos anos de minha vida nesse lindo país. Estou te escrevendo pai, para dizer que a central vai me promover. Já saí de Goiânia. Bom não é?! Eu sei! Finalmente meu trabalho foi reconhecido, demorou um tempo, mas eu fiz nosso nome.
Sinto sua falta, sinto falta do Ivan e ainda me aperta o coração todo aniversário de luto de nossa mãe. Conheci alguém quando fui visitar minha nova cidade, ela parece legal. Acredito que termino minha mudança amanhã.
Te escrevo outra carta de lá, para que o Senhor tenha meu novo endereço. Se resolver voltar ao Brasil te aguardo ansioso.
Abraços do seu filho Eugene Korsakoff.

14 de mar. de 2012

Terceiro dia



                Noite passada não fui para casa, eram coisas demais a resolver, tirei um cochilo de no máximo quinze minutos no sofá do departamento. Sonhei com ela.
                Na verdade eu sonhei com o dia em que nos conhecemos.
                Ela deve ter deixado todos eles doentes, não existe outra explicação para o fato de liberarem-na assim tão cedo. Me recuso acreditar que ela tenha progredido no tratamento.
                Acho que finalmente estou pegando o jeito disso, é como se eu fosse uma virgenzinha no auge da puberdade sofrendo pela falta de amigos.
                Tentei em vão ligar os pontos durante a noite “faltam peças demais nesse maldito quebra cabeças, se ao menos aquele moleque ainda estivesse vivo”. O dia nasceu, não demorou muito minha secretaria chegou. Não fazia ideia de que ela chegava tão cedo ao trabalho, o expediente só começava as 10 e ela já estava lá arrumando suas coisas. No radio tocava boleros antigos mesclado com noticias do Vaticano.
                Parece que finalmente vão reconhecer aquele hippie como messias. Eu digo uma coisa, para se levantar e encarar de peito aberto o que aquele filho da puta encarou é preciso culhões.
                Ela está radiante, ainda choramingava enquanto organizava a papelada em suas gavetas. Não tinha me visto enrolado na toalha ali em frente ao quadro com meus rabiscos.
                Sempre preferi o chuveiro do departamento.
                É mais quente e sai mais água que o do meu apartamento. A pobrezinha levou um susto quando me viu. Perguntei o que tinha acontecido e ela não se segurou, me abraçou em prantos. Eu sentia satisfeito aqueles seios médios em meu peito, ela me contou sobre seu namorado e as atrocidades que ele vinha fazendo de uns tempos para cá. Abriu seu coração. Dizia que estava carente e que gostava das minhas cicatrizes.
                Eu mal podia acreditar.
                Ela me beijou, aqueles lábios macios com gosto de creme dental de menta, aqueles seios firmes e o rabo mais lindo que eu já vi, seriam finalmente meu. Os outros funcionários só chegariam daqui algumas horas, aproveitei para fazer com ela o que sempre quis desde quando vim transferido de Goiânia. Abocanhei aquela linda buceta e só parei quando ela implorava. Fodemos por horas.
                Sem duvida a melhor foda que tive desde que ela foi internada.
                O dia mal tinha começado.
                Ela saiu feliz para buscar minhas roupas na lavanderia, voltou rápido e pedindo mais. Se eu soubesse que ela teria tanto tesão assim nas minhas cicatrizes e tatuagens, iria trabalhar sem camisa todos os dias.
                Vesti meu terno preto, camisa branca e minhas botas pretas.
                Agora sim era gente.
                Ela me disse que a diarista tinha ido ao apartamento e que iria mandar agora cedo ainda um faz tudo resolver os problemas com a fiação e o encanamento. Eu só conseguia pensar “meu pau deve ser de ouro”.
                Fui para reunião com o dono do estábulo.
                Cheguei naquela fazenda, quatro mil alqueires de terra em um dos bairros mais caros da cidade. Eu tenho que acabar logo com esse esquema, quero esse bolo todo pra mim chega de dividir com esses vermes.
                Ele me esperava em um estábulo em construção, dois guarda costas. Acho que eram russos ou alemães a julgar pelo tamanho e a cor da pele.
                - Korsakoff... Pontual como sempre.
                - É...
                - Soube que você anda se informando sobre assuntos que não lhe dizem respeito.
                E a conversa prosseguiu por horas. Aqueles dois caras pareciam cães prontos a atacar, mas não me intimidaram, eles não seriam tão retardados a ponto de matar alguém como eu assim. Esses filhos da mãe eram inteligentes.
                Sai de lá faminto, alegria me causava isso.
                Passei na padaria do francês. “Pierre, me vê o de sempre e café preto.
- Korsakoff, meu nome é Genet, JEAN GENET e não Pierre... Porra!
- Pra mim vocês franceses são todos iguais, como aqueles malditos asiáticos. Uma grande copia, um lote inteiro de Pierres e Miagis.
- Sempre carismático, não é mesmo filho da puta?
- Faz parte do meu charme...
- As coisas estão pesadas. Fiquei sabendo que os ucranianos já tomaram metade da cidade.
- Porra!
- O quê? Você sabe de algo não é?
- Viado, preciso ir... Cancela o pedido e me dá só o café.”
A porra ficou seria.
Passei a mão no bolso do paletó e peguei meu cantil, completei com uísque. Meu humor acabava de ir para o mesmo lugar que a boca da minha secretaria, o saco.
Voltei correndo para o departamento.
- Senhor, aquele rapaz de ontem esteve aqui hoje de novo e o pessoal do sanatório disse que você precisa ir rápido.
Mal tive tempo de colocar todas aquelas informações no quadro...
- E meu apartamento?
- Limpo e arrumado.
Sai as pressas. Não tinha considerado isso, ainda.



...

6 de fev. de 2012

Segundo dia.


Não sei ainda como começar. Não dormi direito à noite, mas acho que o diário está funcionando. Não lembraria nunca dessa maldita reunião de hoje com o delegado. As coisas estão estranhas. O ar está pesado, meu otimismo de ontem sumiu... Se esse outono não passar logo as coisas vão ficar feias por aqui.
                Não tinha muito que fazer, fritei um ovo, preparei café e servi uma caneca farta meiada com uísque. O Apartamento está uma verdadeira zona, parece que foi revirado por vagabundos.
Terão sorte se conseguirem achar algo de valor aqui.
 Tomei um banho, separei minhas roupas para a lavanderia.
Lembrete: buscar roupas amanhã na avenida principal, passar no alfaiate e no mercado do francês. Reunião com o dono do estábulo.
 Tenho trinta e sete horas até amanhã, imagino o que seria do mundo se os dias fossem menores. Aquele pedaço de merda que chamam de carro estragou de vez, tive de acionar o seguro, preciso resolver logo as merdas dessa cidade.
Minha mãe nunca confiaria em mim não entendo porque essas pessoas confiam.
Vesti uma camiseta preta, um blazer e jeans. Odeio ir trabalhar vestido como mendigo. Chegando no departamento minha secretaria não estava tão alegre quanto ontem, os olhos hoje inchados pareciam ter levado uma surra, o rabo continuava incrível.
“Surra de piru” pensava.
“Senhor, deixaram recado do sanatório, ela já pode ir pra casa amanhã” dizia ela.
“Droga! As coisas estão ficando complicadas por aqui, eles não poderiam segura-la por mais uns dias? Ligue para uma diarista e mande dar uma geral no meu apartamento ”
“Tem um rapaz com sotaque estranho que te esperou aqui até agora pouco também, não deixou telefone.”
“Esse filho da puta pode esperar, estou indo para reunião com o dono do livro”
O delegado me esperava em sua casa, uma bela casa para um delegadozinho de merda. A empregada me mandou ir direto ao escritório.
“O filho da puta está mesmo atolado na merda...” Era o que ficava na minha cabeça.
- Bom dia Korsakoff... Temos assuntos a tratar.
- Primeiro o livro...
Não vou descrever todo o dialogo, mas hoje com toda certeza foi satisfatório, quando a porra toda vier a tona ninguém vai saber de onde veio o golpe. 

1 de fev. de 2012

Primeiro dia.


             Hoje começo esse diário. Percebi que minha memória já não é lá das melhores, mal me lembro o que pedi no almoço de ontem, mas esta manhã estava clara, me levantei. Tinha casos a resolver, bucetas a fuder e uísques a beber. Minha filosofia de vida nunca foi tão satisfatória.
                A vida não deveria se complicar mais do que isso. Tomei um banho, servi uma dose graúda de vodka com gelo e peguei meu terno cinza. Era o único que não estava sujo.
                Enquanto colocava meu chapéu pensava: “Hoje merda nenhuma vai me atingir”
                O vento frio e a possibilidade de nevasca me fizeram pegar meu sobretudo. Odeio roupas surradas. Parei na loja de bebidas no caminho do departamento e comprei dois maços.
                “- Filtro vermelho
                - O senhor sabe que é mais forte, né?!
                - O problema é meu, filho da puta...”
                Irônico como não tenho paciência para pessoas enxeridas. Meu carro começa a dar defeito novamente, acho que é o radiador. Preciso colocar logo a mão nessa bolada antes que a porra toda estoure e eu tenha que engolir como as putas do lado oeste.
                O clima no departamento estava cinza, o humor da secretaria radiante, foi bem comida a filha da mãe. Até que não seria de todo mal colocar as mãos e a boca naquele rabo.
                “- Dois recados pro senhor... Um deles diz ser o dono do livro e o outro diz querer tratar sobre o carrossel”
                Esses viados estavam tentando me fuder, não existe outra explicação. Eu deveria colocá-los de quatro e mostrar que não se brinca com o maior investigador dessa merda de cidade.
                Calma rapaz, pensei na hora. Você não é mais um muleque para agir por impulso, já dizia D. Corleone: “Só mulheres e crianças podem ser descuidados”  
                Olhava com certo tesão aquele quadro rabiscado, a sensação que tinha é que estava prestes a resolver tudo, a cidade se curvaria diante de mim. Seus ratos hipócritas da alta sociedade lamberiam minhas bolas. Estava animado demais para almoçar.
                Retornei as ligações de um telefone publico próximo ao bar de motoqueiros. Reuniões marcadas. Só preciso esperar a data certa e rezar a Deus ou ao Diabo para que ninguém mais do departamento chegue aos resultados que tive.
                O resto do dia foi inútil. Aqueles filhos da puta estão com o queijo, mas eu tenho a faca e eles ainda não fazem idéia disso.
                É bom que tenha tudo registrado, caso acabe com um sapato de concreto no fundo do rio. Ainda vai um tempo até me acostumar com essa idéia de diário.