28 de abr de 2012

Box

                Aí você acorda. A casa silenciosa “Não tem ninguém”.
Suspira.
Urina com dificuldade por conta da ereção matinal. Dá descarga e olha para o espelho, limpa as remelas, escova os dentes, o coração acelera. Se convence que é por conta da mijada “efeito retardado”.
Caminha até a cozinha e a porta do quarto bate forte.
“Foi só o vento rapaz”
Abre a geladeira, pega a garrafa de água e dá duas boas goladas no bico mesmo, a brisa fria encontra sua espinha “Acho melhor um banho”.
Já nu com a água caindo em sua cabeça, todos os problemas parecem distantes, shampoo na mão, massageia o cabelo e na hora do enxague, BOOM, seu reflexo te encarando paralisa suas pernas e palpita o coração.
“Filho cheguei!”
“Não era nada no final das contas” e um sorriso aliviado na boca.

25 de abr de 2012

Uma vez


                Existe sempre um momento. Um momento que você percebe que as suas manias, seu jeito, você, irritariam quase que mortalmente a outra pessoa e que por mais que ela ache bonitinho agora, isso não duraria um mês se estivessem juntos.
                Mas não dá para mudar.
                Você não quer mudar, e, nem o sol quente das manhãs frias ou a grama seca das tardes mornas te fazem arrepender dessa decisão.
                São em momentos assim que vinte maneiras de ver o mundo se tornam vinte maneiras de começar uma briga.
                E não há nada a fazer quando isso acontece.   

14 de abr de 2012

Açodamento


            Parecia que não ia dar tempo. O relógio passava mais rápido e os barulhos se tornavam mais altos.
“Tô fudido”
Dobrei a esquina como Senna momentos antes da decisão. Subi os três lances de escada e nem tranquei a porta depois de entrar. Corri direto ao banheiro, e, como se combinado as duas portas – sala e banheiro – bateram juntas.
Alguns minutos depois olhando para baixo enquanto aperto a descarga pensando: “É quase igual aos filmes do Nicholas Sparks, só que melhor”

11 de abr de 2012

Apanhador só


                “É o seu norte que tá variando”
                O som do rádio tocava isso enquanto ela divagava ao picar a cebola para o molho do macarrão. Falava quase que sozinha com seu avental e a faca mal amolada, enquanto ele gozava de um raro momento de descanso sentado no tapete em frente ao Super Nintendo de 93. Não escutava o que ela dizia, até escutava, mas fingia que não.
                Sunset Riders era mais importante. Não que fosse, mas ele desligava ao ver aquela introdução. A mente esvaziava e o corpo relaxava.
Ela falava.
                Limpou a mão, desligou o som de maneira rápida e olhou para ele, com aquele olhar de raiva que murcharia fácil ramos grossos de arruda.
                “Me escuta?” “Tô ouvindo” “Acha que fiz certo?”
                Ele pausando o jogo com a mesma delicadeza de quem desarma uma bomba, dá um gole na cerveja gelada, deixa a garrafa suada no chão e encarando aqueles lindos olhos ciganos, diz para a moça de cabelos bagunçados e avental sujo: “Aham.”
                Ela sentindo-se mais calma volta ao prato principal. Ele sentindo-se mais aliviado volta ao jogo cantarolando: “Não é o prédio que tá caindo, são as nuvens que estão passando”

6 de abr de 2012

DDD


- Achei que tivesse sumido.
- Esse tipo de coisa não some assim tão fácil.
- Não.
- O quê?
- Não chama de coisa.
- Senti saudade.
- Tá bêbado?
- Não...
- Saudade é sentir falta de alguém, carência é sentir falta de algo. Tem certeza que sentiu saudade?
- Vou desligar.
- Depois a gente se fala.
- ...