31 de dez de 2011

Voy a apagar la luz


                Virou rápido e esbarrou em um copo de vidro em cima da pia, o copo veio ao chão como todas as expectativas e planos que se fazem no primeiro dia do ano. Ele olhou com desprezo pra todos os cacos que refletiam, graças a luz e a cor do piso, retalhos de seu rosto.
                Com os pés descalços, olhos vermelhos e sem calças, caminhou rumo a sala segurando o prato com seu pão com manteiga, pisando nos cacos, perdendo seu sangue e idolatrando a solidão.
                -É isso. Um homem não deve ficar sozinho, não por muito tempo. Esse ano arrumo um cachorro.

29 de dez de 2011

Never Forget

                A calçada rachada era testemunha da apatia que eles sentiam pelo mundo. Eram rapazes comuns, com hábitos cruéis e sentimentos isolados. Não tinham muito que fazer.
                Batiam em alguma outra turma nas horas vagas.
                Pichavam muro pra matar o tempo livre.
                Enchiam a cara e fumavam maconha na pista de skate.
                Mas o que os unia de fato era o amor não correspondido por alguma mulher. Essa turma de jovens meliantes mantinha no peito guardado sob uma pedra, tão pesada quanto queriam que fosse, o mais nobre sentimento por alguém que já fora no passado uma donzela indefesa deflorada por algum crápula com o cu cheio de anabolizantes e cérebro capaz de fazer amebas se sentirem físicas quânticas.
                Alem do sentimento havia o silencio, quebrado inúmeras vezes por um violão, uma gaita, um trago de maconha e um gole de conhaque. Juventude transviada. É a conseqüência das mulheres na vida de jovens promissores.

27 de dez de 2011

Oh, sweet Mary

                A casa não era das melhores, um pouco de mofo na parede, escritas com tinta preta em linhas tortas.
                “É como se Deus tivesse escrito essa merda” Pensava ele.
                Caminhou até o balcão improvisado, a velha senhora de bigode e barba mal feita se vira rapidamente, e, lentamente retira a cerveja quente da geladeira azul enferrujada. Com toda a classe que seus pelos na orelha lhe permitiam ter, pegou um copo americano ensebado e entregou ao rapaz de semblante cansado e pele pálida.
                “Daqui a pouco as menina tão vindo... É que agora era hora do descanso e elas tava barrendo o terreiro” Disse a senhora do sorriso amarelado.
                Escorado naquela mesa de sinuca fodida esperava por mais uma mulher ferrada enquanto o radio a pilha que estava ao lado de um uísque barato na prateleira de cima, tocava algum bolero antigo. Dessa vez era diferente, era a segunda vez que voltava e pagava a hora apenas pra saber dela.
                Aquela menina realmente bagunçou a cabeça desse rapaz. Se ao menos tivesse sido a primeira ou segunda. Se ao menos ela se cuidasse e procurasse estudar.
                Mas a vida é assim, cruel como uma jovem prostituta e impiedosa como uma cafetina ao encontrar garotinhas abusadas por entre as linhas tortas do mundo.

25 de dez de 2011

Let it snow

-Sua mãe e eu resolvemos... Vamos te dar um presente de natal. O que você quer?
-hum...
                Poderiam perguntar o que Hitler queria quando chamou toda Alemanha, ou Putin ao fraudar as eleições. Eles sabem a resposta.
O que eu quero?
Já quis alguém, já quis um carro, já quis andar a pé e vender minha moto, já quis ir a praia, já quis não sair do quarto por uma semana.
Eu.
Já.
Quis.
 Queria aprender a usar o ponto de exclamação, mesmo que algum escritor no passado diga que é como rir da própria piada, queria dominar o mundo, zerar god of war e acabar com o tormento de Kratos. Queria me vingar de tudo que alguém já me fez passar e de todas as noites que passei em claro encarando a folha em branco.
Presente, talvez eu queira o passado ou um pouco de futuro, quem sabe nenhum dos três.
 -Acho que hoje eu não quero nada, mas obrigado mesmo assim por perguntar.

23 de dez de 2011

Hey amigo

                Saí de casa com um futuro meio incerto. Não sabia se o que me deprimia mais era a falta dela ou do uísque.
                A vida não é assim tão fácil pra quem tem costumes estranhos.
                O clima quente me deixava nervoso, é como se finalmente estivesse chegado ao inferno - não é nada agradável. O centro está lotado, não é tão tarde assim. Pessoas comprando, comendo, sorrindo – odeio final de ano.
                Rapaz o que você quer da vida? Pensava.
                Eu quero uma foda, uma dose tripla de gim e dois cubos de gelo, por favor.

21 de dez de 2011

Bad boy boogie

                O tempo nublado ainda refletia a tempestade que recém acabara. Pessoas nessa pacata e calma cidade começavam aos poucos a sentir-se novamente à vontade e prontas para retomar sua rotina calma e suas vidas sem desafios.
                O rapaz que chegara ainda durante a chuva que parecia nunca ter fim estava agora a vagar a procura de seu lugar de descanso. Por entre casas reformadas, ruas esburacadas, lixo entulhado e cães vadios, ele acaba por esbarrar em antigos conhecidos.
                -O rapaz, tá sumido hein?!
                -Pois é... Tava no banheiro.