23 de mar de 2012

Limpeza no corredor 7


                Si perdeu da mãe naquela manhã de quarta-feira enquanto escolhia qual cereal levar. Era um ritual. Não que adiantasse muito, pois sempre levava o mesmo do elefante com a caixa marrom que era de chocolate, mas ele gostava de pensar qual seria o gosto daquele vermelho com tucano ou o outro que tinha um raio e brinquedos chamativos. Pegou a caixa e se deu conta que estava perdido.
                Andando por aqueles corredores, o coração batia mais rápido “não vou achar, não vou chorar”. Não estava na sessão de limpeza ou nos grãos. Deparou com aquela luz branca e um frio aconchegante que arrebatava o calor goiano. Tirou a cueca – velha e um numero menor que o certo – da bunda e ficou ali, olhando abobalhado para aquela imensa variedade de iogurtes, pudins, flans, queijos e frios em geral. Não sabia o que chamava mais atenção, o que parecia mais saboroso. Sabia com toda certeza que não comeria aquele tal de requeijão. Na escola, quando queriam deixar aquela pobre criança nervosa o chamavam de Jão.
                “Algo que termina com Jão não pode ser bom”
                O nojo cedeu espaço para felicidade, a mãe acabara de sair do corredor de enlatados e vinha ao seu encontro. O desespero veio em seguida, ela pegou um pote.
                Já em casa, relutante, não comeu do requeijão.
                Os dias passaram e como sempre seu cereal acabou, era comum. Comia tanto daquela porcaria que não dava nem quinze dias depois das compras e já estava sem. A mudança aconteceu naquela sexta de recesso. Era reunião de professores ou qualquer outra coisa do tipo, não teve escola. Ficou em casa a tarde toda. Foi nesse dia que conheceu o tio Ernesto, um homem de barba mal feita que passou horas trancado no quarto com a mãe. A fome era muita e só tinha requeijão e pão.
                “Quando eu for grande vou proibir os ÃOs”
                A mãe não abriu a porta e ele se rendeu aquela pasta branca. Como quem pega um bixo morto e em estado avançado de putrefação enfiou a faca no pote e passou com cautela no pão. A primeira mordida. Tão saborosa e mágica quanto todas as outras que viriam.
                Comeu metade do pacote de pão de forma. Por volta das cinco o tio Ernesto saiu do quarto, tomou um gole grande de água com a boca direto na garrafa “mãe não deixa meu pai beber água assim” ele riu e o garoto continuou a passar requeijão no pão. Passava cada vez mais e se lambuzava. Tio Ernesto foi embora. O pai chegou algumas horas depois, não tinha janta e começou na cozinha a gritar com a mãe, só parou quando saiu pouco tempo depois muito bravo de casa.
                Os dias passaram ligeiro.
                O mundo era maravilhoso, ele, o requeijão e o pão. O mês acabou março chegou, e, no primeiro sábado foi dia de compras. Pai, mãe, filho. Foi direto para aquele canto do mercado, “pedacinho do paraíso” olhou os tipos, as marcas, imaginava se teriam o mesmo sabor. Já empunhava aquele da vaquinha com embalagem transparente, queria do amarelo. Era um amarelo bonito, não tardou a mãe saiu do corredor de enlatados indo ao seu encontro. O pai que estava na sessão de bebidas chegou mais rápido ao seu lado “posso levar o amarelo também?”, “Não!”, a mãe encarando o pai pega do amarelo e do branco. Euforia, acho que essa é a palavra certa. Sai o menino empolgado empurrando o carrinho rumo ao caixa enquanto o pai faz aquela expressão nervosa com a mãe.
                Em casa o som dos gritos, portas batendo e pratos quebrando eram a sinfonia que embalavam as tardes amorosas. Jão, requeijão e o pão. “O mundo deveria ser feito de ÃOs”.
                Aquela terça de tarde chuvosa marcava dramaticamente o fim do pote com requeijão amarelo, seu sanduiche favorito com dois tipos de requeijão, e só, não teria mais dois sabores. O pai disse algo parecido com “Tô de mudança filhão, a gente vai poder jogar bola dentro de casa quando você for me visitar, te ligo hein?!” nos dias futuros ele não ligou e o filho não visitou. O requeijão branco não durou muito também e o tio Ernesto vinha sempre visitar a mãe.
O tio Ernesto, o Joaquim, e o seu favorito o tio Astolfo que sempre trazia uns doces molinhos que vinham numa casquinha de sorvete “O tio Astolfo tem um cheiro engraçado” e a mãe sempre feliz só se preocupava com a tristeza repentina do filho.
Marcou de passear “vou te levar na tia Márcia”.
                Na placa logo na entrada havia um tridente desenhado em preto ao lado do nome dela. “A tia Márica deve trabalhar pro aquaman”. Bom, não trabalhava. Mas falaram dele e de outros heróis e brincadeiras e da escola, do parquinho com areia, daquela pracinha e falaram também do requeijão durante aquela tarde e as outras que viriam. 

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