22 de mar de 2012

Era um dia de sorte.


                Sabe aqueles dias cinza onde o sol manda sua claridade esquentar um pouco de ar criando o mormaço chato? Então, aquele domingo estava assim, ou seria sábado?
                Isso não é tão relevante.
                O que importa é que ele acordou por volta de onze da manhã com uma ressaca de vodka barata e cigarros falsificados. Tomou um banho e foi para cozinha onde sua família o esperava com uma felicidade irritante - como se tivessem saído de um comercial de manteiga – um sorriso no rosto, o almoço pronto e já na mesa com tudo aquilo que achavam que ele gostava.
                O assunto durante almoço não foi outro.
                “Você tem de manter a calma”, “Vai tranquilo”. Nem se dignaram, a saber, que horas chegou na noite anterior e o que fez. Sentiam orgulho dele. Isso incomodava.
                Terminou o almoço foi para o quarto pegou a primeira camiseta limpa que achou, uma bem velha e surrada escrita Ramones, uma camisa xadrez marrom com branco e o resto do cigarro no maço vermelho amassado com isqueiro dentro.
                Chegou, faltavam cinco minutos para que o portão fechasse. Só deu tempo de pegar um kitzinho que algumas pessoas do seu colégio davam. Vinha um suco, um copo de água mineral e uma barra de chocolate light. O suco era de maracujá. “Hoje deve ser meu dia de sorte” pensava ele com todo seu sarcasmo enquanto sentava em seu lugar predefinido. Faltava ainda meia hora para o inicio da prova.
                “Alguém quer?”
                Foi o que ele disse oferecendo a caixinha amarela desbotada meio suada que seria aceita por um futuro amigo. Mas o que chamou atenção foram aqueles olhos que Machado de Assis já havia descrito muito bem. “Olhos distantes” Mick diria isso, mas a cabeça doía muito e seria uma prova extensa, pelo menos era o que achava.
                Terminou tudo, faltavam ainda duas horas para que pudesse sair. Tirou então a camisa de flanela, dobrou e a colocou em cima da prova, dormiu o sono dos justos. Não que ele fosse, mas para aquelas pessoas em volta ele era.
                Acordou uma hora depois com aqueles espasmos musculares involuntários que geralmente vem depois de sonhos estranhos.
                Limpou a baba da bochecha e olhou para as janelas na parte de traz da sala. Bom, era a intenção olhar para lá. Seus olhos pararam e focaram naquela garota meio mulher meio cigana.
                Cigana no sentido bom da palavra, daquelas sensuais e misteriosas com olhos marcantes que focavam nele enquanto o resto do rosto trazia uma feição assustada.
                A prova acabou.
                Ele se levantou, entregou o gabarito e saiu antes de todos naquela sala. Caminhava pensando nas bundas que cortavam seu caminho, no jogo do seu time e entre tantas coisas na cabeça pensava também nos olhos distantes daquela menina mulher – que mais tarde viria conhecer muito bem – o mundo parecia simples. 

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