11 de jun de 2013

Azitromicina



                Engraçado como coisas bobas e tempo ocioso nos fazem pensar em universos. Numa tarde dessas o corpo resolveu revidar a forma como foi tratado a vida toda, me derrubou. Parei no pronto socorro. Uma hora de caminhada para que não desmaiasse durante o percurso. Respondi a ficha de cadastro, fui examinado e aí me levaram para um quarto com leitos, no momento somente um estava ocupado. Me deram soro e antibióticos. Foram horas e mais horas deitado naquele pequeno e nada aconchegante quarto. Eu meio acordado, meio fora de mim. No, quase, dia em que passei ali, vi pessoas acompanhadas, algumas chegavam tomavam remédios e se despediam, era tudo muito rápido. Eu permanecia só. Vi casais sexagenários e jovens. Vi amigos e irmãos, mães e pais, tios, todos chegavam, e, dentro de um curto período iam embora. Só, naquela cama enferrujada, percebi que talvez algumas pessoas estejam fadadas a solidão. Durante a vida toda foram solitárias e provavelmente serão até o dia que o grande JC voltar recolhendo nomes para o julgamento. Não há nada que elas possam fazer pra mudar isso. Não é trocando alimentação, cidade, ciclo social ou a rotina sexual, estarão sempre por conta própria, o mundo não ligará para elas, pequenos mundos de olhos brilhantes tão pouco se importarão. E a solidão é triste. Naquelas horas que passei deitado, recebendo minhas drogas salvadoras na veia, tive tempo para pensar. Mas como são raras as coisas eternas, fui obrigado a sair. Continuei meus devaneios enquanto refazia o caminho para casa, cento e vinte minutos de caminhada apoiado as paredes históricas de uma cidade fria. Cheguei, joguei minha receita no criado, junto à da semana passada, e fui para o banheiro. Acho que estou começando a ver graça em colecionar receitas médicas. Elas ficam tão bem ali, paradas, abandonadas, é como se fossem orações confortantes para um futuro bom. Me enfiei no chuveiro e tratei de mudar o que estava pensando, é como já dizia minha vó: mente vazia, oficina do diabo. Pode ser, também, que, talvez, tudo isso não passe, apenas, de um delírio febril de um rapaz amargurado.  

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