8 de out. de 2012

P's



                Os pais nunca sabem, mas eles estragam os filhos.
                Isso não quer dizer que os amamos menos, ou que nos amam menos. Acontece porque são humanos, humanos erram e mentem. Acontece.
                Eles deveriam reconhecer, não é nada demais. Quer dizer... As vezes é, mas na maioria não.
                São esses erros que nos tornam únicos, a gente foi tratado de maneira diferente e crescemos assim, aí quando convivemos com outros seres não entendemos isso. Não aceitamos que o erro dos outros pais fez dessa pessoa o que ela é hoje.
                É o mundo da intolerância.
                Aos poucos paramos de tolerar até lactose, quem dirá a diferença alheia. Há aqueles que acreditam, ainda, num mundo tolerante, sem triângulos rosas, foices e martelos, empire states e brasões de família. Faz parte, tem gente que até hoje acredita na democracia do Brasil.

1 de out. de 2012

When a man



                - E aí?!
                - Mais ou menos...
                - Que isso, mais ou menos?! Você?
                - É!
                - Que foi agora?
                - Sei lá...
                - Diz aí, o que tá acontecendo?
                - Acho que tô apaixonado.
                - Quem foi a mulher que conseguiu te deixar assim?
                - Porque o espanto?
                - Você sentindo alguma coisa.
                - Hmmm
                - Porque você acha isso?
                - Sei lá... Acho que quando você vê alguém e automaticamente escuta Michael Bolton na sua cabeça, tem algum sentimento aí.
                - Deve ser estranho ser você...

30 de set. de 2012

É que tá tenso aqui embaixo



                A semana tinha sido quente, quente como inferno só que sem as mulheres promíscuas e o álcool grátis. O final de semana foi frio, tão frio quanto a primeira namorada.
                A coisa foi séria.
                O corpo dele pedia ajuda, a boca latejava, parecia um trabalho impossível para os olhos se manterem abertos e funcionando, os joelhos rangiam e o machucado da mão demorava mais que o normal para cicatrizar.
                Como se tudo isso não fosse o bastante, a vodka subiu de preço, as mulheres não olhavam para ele, a cerveja nunca estava na temperatura ideal e sua voz andava rouca. Em casa o gás acabou, o chuveiro queimou e a maquina de lavar pegou fogo levando junto suas melhores camisas.
                Tudo aquilo apertou o coração, mas de sua boca só se ouviu uma frase. Uma única oração naquele domingo de vento gelado, solitário, naquela pequena grande quitinete: Deus! O senhor está por aí? Aqui sou eu Felipe Eduardo...
                E foi a ultima vez que se sentiu desesperado o bastante para acreditar que tal coisa funcionaria.   

29 de set. de 2012

(In)Sônia



                Ele custa abrir os olhos, ela insiste em perguntar coisas aleatórias e falar do dia dela. Ele quer virar pro lado e dormir, se embalar ouvindo os carros que passam na avenida e acordar doze horas ou anos depois.
                Ela quer conversar. Falar da relação com a mãe, da melhor amiga, do vestido novo e da cirurgia que tá marcada pra semana que vem, ele só quer dormir.
                Ela fala incessante e ele sente as pálpebras cada vez mais pesadas, a voz dela vai tomando conta do ambiente e aos poucos é o único som que ele ouve. Como um mosquito que voa no quarto silencioso a procura de sangue. Aquele timbre em ondas vai entrando, o sotaque destaca e a vontade de bater no som, virar pro lado e dormir se torna praticamente incontrolável.
                Tão incontrolável que se manifesta. Espasmos.
                Ela dá um selinho na boca dele, vira pro lado dizendo boa noite e dorme rápido e ele fica com os olhos vidrados no teto procurando o sono que acabou de perder.

28 de set. de 2012

Nem desconfia



                A gente faz tanta coisa. Fazemos hora na fila do meio dia, alguns almoçam outros se coçam, antigamente as crianças tomavam, até, banho de bacia.                 A gente saía e sentava na porta, conversava com o vizinho e dizia bom dia. Nos finais de semana, na calçada, a gente lavava a roupa suja e bebia chimarrão olhando as crianças correndo na rua.
                Tinha arvores e grama, nem sempre estavam verdes e às vezes floriam.
                A gente esperava que chegassem do serviço com suas botinas enlameadas e o cheiro de cigarro e café, a garrafa de água embaixo de um dos braços e a jaqueta cinza no outro. Aí a gente esperava até que tomassem banho e jantassem pra poder conversar, e rir, e tocar violão.
                Falávamos da Fia que amava o João, do Carlos casado com a Maria e da viúva Marlene com seus filhos, aí nos despedíamos e íamos dormir enrolado na colcha de retalho esperando o outro dia.
                E outro dia vinha, as coisas iam mudando e a gente nem desconfiava.