13 de mar. de 2013

Ana



                Talvez seus lábios fossem labirintos, mas eu não tinha me dado conta. É o que acontece quando se tem músicas com nomes de mulher.
                Lábios doces e sacanas.
                Encontros furtivos, conversa animada e não era, só, a televisão. Talvez estávamos perdendo o nosso tempo reclamando da perfeição. Mesmo que não nas palavras. Então, peitos, tesão e chupadas, vinham a tona, como quem descobre o outro numa quarta feira fria.
                A coluna se arrepiava a cada sugada e o pau estremecia, lutava em se manter duro, firme e rígido, mas os lábios e os olhos... Há os olhos, além dos seios, e a boca aveludada que atraem os meus instintos não tão sacanas.
                Não sei, sinceramente, se seu olhar sempre me engana. Não sei como terminaria a nossa transa, como seriam as noites sem a sua boca sacana.
                Eu sei que, te deixo em casa após algum encontro ilegal, pela janela você me beija com a mesma gana que beijava meu pau, se vira e pega as chaves. Eu contorno o carro e passo, lentamente, enquanto você tranca o portão durante a madrugada. Não nos vemos por meses, pode ser que algum dia os meses virem anos.
                Mas sempre que volto, sem pensar ou por pensar demais digo que quero te ver, é como uma dança cigana. Pura sedução subentendida. Eu entro, sempre, e me perco por uma noite a cada semestre. Quem sabe duas.
                Talvez tenhamos nos encontrado sem pensar, mas não há tempo pra se arrepender e roer as unhas, o nosso crime tem perdão. Mesmo que tenhamos feito sem pensar.

2 de mar. de 2013

Feliz idade



                Há pessoas que acreditam, fielmente, que felicidade é dinheiro no fim do mês, tem aqueles adeptos da cerveja gelada na esquina. Para Bentinho era estar junto ao inquietante e sedutor olhar de Capitolina. Apaixonados e jovens ingênuos pensaram em alguém ao ler o título: Felicidade. Dizem por aí que um bom boquete equivale ao feliz contentamento.
                Aos crentes, damos o templo e para os apressados há o tempo.
                Para mim? Felicidade é deitar no chão em uma tarde preguiçosa assistindo Raul Gil.

28 de jan. de 2013

Nota aos colegas.



                É engraçado como somos rapidamente julgados quando expressamos nossa opinião. Olha que esse é um tema bem recorrente, principalmente quando se trata de humor.
                Recentemente um caso a parte me chamou a atenção, postei no Facebook a seguinte frase: “Rio Grande do Sul ensinando o Brasil a assar uma carninha”.
                Sou de família gaúcha. Meus avós são gaúchos, tios e vários primos. No Brasil há a cultura das churrascarias gaúchas espalhadas aleatoriamente nos estados brasileiros. É possível se achar uma dessas na Bahia. O contexto dessa frase, porém, fez com que meus amigos e pessoas que faziam parte do meu perfil ficassem extremamente irritados e ofendidos.
                Na noite anterior, em uma boate na cidade de Santa Maria duzentos e alguns jovens morreram. Hora nenhuma na frase eu me referi necessariamente a essa tragédia, mas mesmo assim fui julgado por isso. Engraçado. Quem é o babaca da história?
                Este seria um ótimo argumento para todos os comentários, mas eu quis deixar subentendido o ocorrido na boate. Mea maxima culpa. Você se pergunta, ou não, o porquê disso.
                Bom... Nós não somos especiais. É aquele discurso Palahniukiano batido já visto internet afora. Eu assumi a postura de quem não se importa, porque de fato eu não me importo. Se você não sofreu diretamente com aquilo, você também não tem razões para se importar. Verdade seja dita.
                “A sensibilidade é o que nos torna humano.
                Besteira. Você se sensibilizou porque pensa que poderia ter sido com você. Eu percebi nos discursos que me repreendiam as seguintes frases: E se fossemos nós? E se fosse naquela boate que a gente frequenta? E se fosse minha filha? E se fosse a sua mãe chorando? E se fossem nossos amigos?
                Vou contar um segredo agora: Não era.
                Não aconteceu na boate que nos frequentamos, não era a minha ou a sua mãe. Agora eu conto outro segredo, que você não quer assumir: Você não liga pra eles. Você diz que acha ruim, porque se colocou no lugar deles, afinal é a mesma faixa etária e de repente, num domingo nublado, percebeu que não é imortal e acidentes acontecem.
                Estamos todos fadados a morrer, porque fazer disso grande coisa?
                Quem é babaca de fato? Eu que assumo o que penso e sinto ou você que veste o manto da solidariedade de momento?
                O que ocorreu foi de fato uma tragédia, eram jovens e toda essas coisas que a sessão sensacionalista vai dizer bem melhor do que eu, mas isto na minha vida foi só uma nota de rodapé, no máximo. Se você tinha parentes ou é um sobrevivente daquilo, boa sorte. Procure os culpados e faça justiça, agora se você, caro leitor, é só mais um reclamão que adora dar pitaco na opinião alheia, cale-se e recolha-se a sua insignificância.
                Pois se podem colocar no facebook fotos de pessoas queimadas, eu posso ao meu bel prazer falar da minha insensibilidade.
                E se no final das contas, continuam não satisfeitos, Santa Maria precisa de voluntários em diversas áreas, pegue o próximo voo ou ônibus.  

26 de jan. de 2013

Bom dia Margarida



                Eu poderia dizer que era casa e era jardim, mas na verdade eram apartamentos e os olhares não aconteciam nas varandas.
                Era tudo muito novo.
                Era tudo muito simples. Veja bem Margarida, pode ser que amanhã eu tenha partido e encontre minha cidade prometida, ou você, quem sabe, volte a coçar suas feridas. Quem garante, também, que eu não tenha minhas próprias a cutucar antes de arrumar um meio de vida pra você, realmente, gostar de mim.
                Margarida, a gasolina já subiu o preço e as flores vão sempre brotar.
                Veja meu bem, pode ser que eu tenha de partir e quem sabe não acho a minha cidade garantida e um meio nessa amarga vida. Eu sei que você não gosta quando te beijo com gosto de suor na boca.
                Mas veja bem, se eu estiver na cidade proibida e arranjar um meio nessa amarga vida, Margarida, não há gosto de suor que te afaste, ou feridas que não nos aproxime, pode até o arco-íris mudar de cor e você me preferir com um gosto de sabão na boca, quem sabe eu não esqueço o seu endereço e começamos o fim.
                Veja meu bem, pode ser que eu arranje meio de vida pra você gostar de mim.

14 de jan. de 2013

Entra! Tá aberta.



                Entre amores há sempre um vazio, um eco. Quase amores que brotam ali e não vingam, o terreno é infértil pra isso, é necessário deixar descansar. A cabeça não é um campo tão fértil assim e amores são prejudiciais. Eles ferem a nascente, vão direto ao coração e fincam seus esporos.
                Aí vem a desintoxicação, grandes doses de álcool e trabalho, músicas altas, perfumes novos, usados quase como remédios homeopáticos, e, em casos extremos repouso absoluto em clausura.
                Entre amores há sempre esse vazio que dura horas ou anos, suja lençóis e a dignidade. Doses de amnésia seriam necessárias, como recuperar um dos dons mais preciosos da infância?
                Mas o tempo passa e sempre que um amor acaba e porteira do campo parece se fechar aí entra um novo amor e se estabelece ali, num pedaço pequeno, vai aos poucos se apossando até tomar conta de tudo.
                E não importa quanto tempo passe, entre amores há sempre esse vazio estranho na cabeça.