26 de jul. de 2013

Primeira vez



                Quando se entra em um terreno desconhecido, e é tímido, o mais comum é se retrair. Eu me prendi ao entrar naquele quarto. Já havia me travado ao pisar na casa e dar de cara com aquele ser divino de longos cabelos pretos e pele branca, olhos escuros e lábios carnudos.
                - Ele tá no quarto, entra. Mãe, que você vai fazer de lanche?
                Gritou enquanto dava as costas. Saiu desfilando com as pernas roliças mal escondidas por um short jeans. Entrei. Cumprimentei a mãe, reparei os porta-retratos. Pessoas mudam. Caminhei lentamente até o quarto e abri a porta. Ele estava no computador, conversamos um pouco e eu fiquei a ver sua estante. Parei na segunda prateleira e fixei o olhar naquilo. Era prata, estava enferrujada. Já teve seus dias de glória, mas continuava tão estonteante quanto à irmã caçula que me recebeu a porta.
                - Posso?
                Ele fez um sinal com a cabeça e emendou com alguma piada a respeito do tétano. Pelo pouco que o conheço, isso, com toda certeza, é um sim. Voltou-se pra frente e eu fiquei ali. Paralisado com ela nas mãos. Não pesava muito, apesar disso, eu tremia como vara verde em noites de temporal. Levei suavemente a boca e soprei. Meu primeiro dó. O gosto metálico se apossava dos meus lábios e eu conseguia sentir o dilatar da minha pupila. Suguei meu primeiro fá. As mãos agiam com tanta naturalidade.
                É como se eu tivesse nascido pra isso. Agora só faltava avisar o resto do mundo.

30 de jun. de 2013

Ainda bem



                Podia ter sido comigo. Era o que pensava enquanto os via de mãos dadas. Podia ter sido eu a trocar elogios, a ficar no marasmo e passar domingos procrastinando em frente a TV. Porém não era. Pensando bem e olhando através de outro ponto de vista, um otimista, foi melhor assim. Imagina se ela em um acesso de loucura, como outras já tiveram e até mesmo ela ameaçava ter, quebrasse não só minha vitrola e a coleção de Pink Floyd como, também, minha coleção de Dylan e o vinil do Led que eu ganhei do meu avô.
                Pensem comigo... Poderia ter sido eu a ter que trabalhar como um condenado pra comprar uma jaqueta de couro nova, já que ela teria feito retalhos da outra. Seria possível que eu fosse asfixiado com o travesseiro durante o sono em alguma crise de TPM.
                Hoje eu sirvo meu café pensando: Podia ter sido comigo, graças a deus que não foi.

26 de jun. de 2013

Não tá claro.



                É legal ter duvidas. Faz parte da natureza humana. A certeza nunca fez nenhum herói. A problemática está exatamente na pergunta: o que você faz com a sua duvida?
                Eu conheço pessoas que fogem. Fugir pode ser, e é considerado por muitos, um ato de covardia. As questões não somem quando você foge. Elas ficam entorpecidas, podem até desaparecer por alguns instantes, mas voltarão. Problemas só acabam quando são resolvidos.
                É meio óbvio, eu sei.
                Mas é que tem gente que não conseguiria ver o caminho mesmo que a mãe pegasse pelas mãos e levasse até a metade da estrada. Pessoas estranhas. A fuga pode ser realizada de diversas maneiras e não tenho competência pra dizer todas elas.
                Todos já fugimos algum dia, o que nos separa dos demais, em algum momento, é que cansamos de ter o mesmo problema de maneiras diferentes, nesses casos ficamos e enfrentamos. Seja por livre espontânea vontade ou por falta de opção melhor.  

19 de jun. de 2013

Baldio



                Antigamente, onde tem esse lote aí, costumava ter uma casa. Pena olhar pra esse monte de entulho hoje e lembrar de como era. Teve uma vez, eu servia o exercito, me chamaram pra sacrificar um cachorro.
                Veterinário era difícil de achar, não que eu entendesse, mas é que eu não tinha medo de bicho bravo. Naquela casa morava um caçador de codorna. Levei o cão lá. Ele carregou a cartucheira, engatilhou a arma e atirou.
                Ele era bem supersticioso, então, quando a arma não descarregou e o bicho continuou vivo, o homem se sentiu mal em prosseguir. Chegou até a me perguntar se deveria tentar atirar de novo. Eu fiz com a cabeça que sim e ele apertou o gatilho. Eu tava habituado com barulho de tiro por causa do treinamento do exército, mas parece que naquele dia foi tão alto.
                Não consegui fazer mais nada.
                Passei o dia sentado, meio vidrado. Não tava rendendo. Lembro que o Sargento, a tardezinha, me chamou pra conversa. Queria saber por que eu tava daquele jeito, disse pra ele que não tava diferente não, era coisa da cabeça dele. A verdade é que eu tava apaixonado. Aquele cachorro me acompanhava sempre que eu saía pra jogar bola. Ele vivia por aqui, nas redondezas. Era meu amigo. Senti que tivesse matado uma pessoa.
                Eu viro aqui. Mudei de casa, agora moro nessa rua. Abraço e um bom dia pra você...

16 de jun. de 2013

A beleza de deitar



                Quando alguém quer outro, o que existe é algo simples. Quando Pedro Emanuel quer Paloma Eduarda, o que sobra entre os dois é amor. A não ser que um terceiro, o amor, profane. Se Paloma escolhe Pedro, ela quer ter sua alma, seu corpo, sua vida. Mas se além dos dois existirem mais? E se Emanuel privar Eduarda do que ele mais venera, o amor sobrevive? Se não privar, a querência durará?
                Diziam que o amor só dura em liberdade.
                Sofrerão. Libertar é preciso. Ele não a quer presa como santa no altar. Ela não quer o amor entre os dois. Nesses casos o junto não é assim uma boa pedida. Quando a complexidade fala mais alto que a vontade, quando o sentimento é maior que liberdade, o melhor, é, seguir seu caminho. Até porque se um dos dois perguntar ao outro: Onde você quer chegar? A resposta pode por um fim em tudo bom que um dia surgiu.