4 de set. de 2013

18 anos, senhor!



                Já servi o exército. Não por amor a pátria, foi mais amor à liberdade. É que aqui, por herança de uns presidentes autoritários, todos os homens são obrigados a, pelo menos, se apresentar na maravilhosa instituição, a força armada brasileira.
                Bom... Fui parar em uma cidade no interior de Goiás. Para quem só ouviu falar, Goiás é o equivalente ao Texas, só que no Brasil. Ipameri não tinha mais que dez mil pessoas e mesmo assim conheci uma das mulheres mais loucas que já esbarrei na minha curta vida.
                Ela não gostava de nada que representasse a lei, me conheceu em um dia de folga. Usávamos narcóticos na parte de trás de um bar, ela pediu um trago.
                Na cama, entre mordidas e arranhados, vivia me dizendo coisas,  “me fala como você faz esse truque? Esse com a boca. O que eu grito, aí minhas pernas ficam moles e dá vontade de rir”. Eu prometi que mostraria se fugisse comigo. Pensava em desertar.
                Não foi necessário. Dois meses depois me liberaram e ela, acabou engravidando de um trapezista.
                Acho que estava apaixonado.

3 de set. de 2013

Garrafas



                Conheci enquanto procurava garrafas. Oficio cênico, no Brasil, te obriga a ser completo. Dizem que os atores, na pátria mãe USA, são um pacote divertido, tipo Mc Lanche feliz, de cantores/atores/dançarinos, e chamam isso de “completo”. Por aqui, nas terras tupiniquins, nós somos, além disso, cenógrafos, iluminadores, maquiadores e todas as outras funções possíveis.
                Lembro de entrar no bar e perguntar: “Boa noite, senhor, você tem garrafas para doar?” Só que eu não fui tão educado, era madrugada e o buteco estava lotado. Ela me olhou com olhos confusos, não percebi quando passei ao lado de onde estava.
                Como todo bom brasileiro que bebe cerveja e não quer esperar, tentei, em vão, furar a fila. Ela não me deixou, até puxou assunto. Quis saber o que eu faria com as garrafas, viu o violão nas minhas costas e pediu que eu tocasse algo. Como explicar para uma linda mulher que eu sou do tipo que prefere gaita?
                Me agradeceu por ter tirado um emergente coxinha da sua cola. Segurou firme o meu braço, quando ele chegou, e disse que eu era o namorado. Sorri e acenei. O restante da noite foi surreal, ambos gostamos desse termo, mas ela se foi. Nos vimos de novo, como se fosse uma despedida.
                Ainda nos falamos e eu não posso negar que sinto ciúmes ao ouvir histórias de seu novo noivo. A parte ruim em ser do teatro é que, até, os amores são efêmeros.  

2 de set. de 2013

Cowboy.



                “Mais uma dose”. Algumas noites nunca tem fim. Mais uma dose e mais um amor, para sentar e sangrar em frente à folha em branco, grossos pingos negros de tinta. Por amores e um trago, por mais que a cada gole, o álcool, inunde os pulmões e as palavras não ditas estrangulem a alma. Uma nova mulher vale isso.
                Mesmo que, no final, a tosse impeça a inalação imediata, ainda que o pigarro insista em sair descompassado, pintado de sangue. Vale a pena. Até porque, as folhas em branco foram feitas pra serem manchadas.

1 de set. de 2013

Mundo S.A.



                Fatos são, antes de tudo, verdades. Verdades refutáveis e que podem – devem – ser questionadas. De fato, o período em que me alimentei melhor, até hoje, foi quando trabalhei.
                Todas as noites, por volta de nove, recebia meu prato fundo, pesado, colorido. Um bife suculento de alguma carne cara, arroz, salada, feijão. Coisa de qualidade, sempre muito bem preparada. Uma grana gorda pra servir porcos endinheirados que vinham até essa cidade turística pagar quatro vezes mais em coisas insignificantes.
                Status.
                Tinha regalias, direito a gorjeta, cervejas e transporte. Era mais bem tratado lá do que pelas mulheres que me amavam. E mesmo assim, me sentia um lixo. O dinheiro fez de mim um bunda mole, um asno corporativo. Aos poucos eu me via dando atenção a circunstâncias medíocres, me tornava um homúnculo mediano.
                O dinheiro me deixou amolecido.
                Minha vida era mais empolgante quando não sabia sobre o amanhã. Ser precavido é uma merda, daquelas que fedem, do tipo que sai de você após uma noite de bebedeira e cigarros. Vai ser sempre assim. Ficar nesse estado catatônico aos domingos de folga, rezando por uma bala perdida ou um gole de arsênio. Crendo que a vida não pode melhorar mais, e que o mundo só será justo quando meu salário subir.
                Depois de um banho e um gole de uísque, eu vou me olhar no espelho e dizer: “Parabéns... Você acaba de se tornar uma linda prostituta materialista”.

23 de ago. de 2013

Segunda e primeira pessoa do singular



                A gente formava uma puta dupla. Nós éramos sensacionais, não existe outro termo. Caminhávamos lado a lado e o mundo parava. Era pura química. Engraçado pensar que você é o pesadelo de qualquer escritor.
                Não escrevi nada enquanto estávamos juntos. Nem um simples predicado.
                Poucas vezes estive tão em paz como estava com você. Esse foi o problema, tudo tranquilo demais. Mal enchia a cara, você me mantinha no de sempre. O bom, e velho, arroz com feijão e bife. É gostoso, mas isso mata algumas pessoas. Eu sou uma delas. Morri aos poucos com você. A situação chegou ao ponto de me fazer acreditar que o mundo é bom, que já havia feito minha parte.
                Você foi o mais próximo de família que eu tive.
                Lembro de quando passamos dias trancados no quarto, só os dois, sem música de fora, apenas seus gemidos e algumas risadas. Eram bons dias. Bons demais.  Pacato. Suas fotos continuam comigo. Você sempre sorrindo e eu com a cara séria. Dormi bem ao seu lado. É como se eu tivesse tirado férias do mundo, durou o tempo que estivemos juntos. Um pouco mais que uma canção.
                Você me deixou, assim como outras, num sábado frio, com pessoas vazias e garrafas cheias. Você foi e eu fiquei. Terminou de me matar ali, era algo novo e eu não me arrependo de ter vivido. Achei que seria fácil superar, mas acredito que estou mais apegado que o normal. Hoje você parece feliz, mal nos falamos e você me trata como um desconhecido. Bom, talvez eu seja. Mas nós formávamos uma puta dupla.
                Antes eu sabia terminar e tinha grande dificuldade em começar. Hoje