15 de fev. de 2012

Uma vez só na vida


                -A próxima é sua...
                -Tá. Me diz uma coisa?
                -Hmm
                -O que aconteceu com aquela menina que você comia?
                -Qual?
                -Aquela que fazia uns bicos de modelo, dormia sempre na sua casa, loirinha com a bunda linda.
                -Ficou noiva.
                -Serio?
                -É. Uma tarde dessas lá em casa a gente se pegava, o celular dela tocou era o namorado dizendo que estava com problemas...
                -E aí?
                -Ela terminou de me chupar, limpou o rosto e foi atrás dele. Acho que se casam em março.
                -Já tinha ouvido falar em beijo de despedida, mas boquete é a primeira vez...
    -É o tipo de coisa que só acontece uma vez...
    -Como é que você tá?
                -Bem obrigado.
                -Idiota, com relação a ela.
                -Tranquilo, acho que vou sentir falta daquela boca. 

9 de fev. de 2012

Me tem, amor


                “Vou fingir que ainda to dormindo, ele sempre acorda animadinho” Pensava enquanto ele se levantava. Virou pro lado e deu uma resmungada, como de quem briga no sonho. Sentiu o cheiro característico do café sem açúcar e se sentiu levemente irritada.
                “Daqui a pouco ele vem passar aquela colônia fedorenta”
                - Bom dia.
Estranhou o beijo, era o mais caloroso que já havia ganhado e se permitido dar em anos. “Hoje faço uma comidinha gostosa pra ele, se não fosse essa pasta de dente vagabunda eu até que podia abrir uma exeção”
                Irritou-se novamente com a toalha molhada em cima da cadeira de frente para a penteadeira e com a xícara suja de café na pia da cozinha. “Pelo menos hoje não tem migalhas de pão”
                - Vou comprar cigarros.
                Enquanto ele saía pela porta ela corria para a janela, gostava de ver quando ele dobrava a esquina. “Engraçado, não me lembro de ver o Astolfo fumar” Era o que pensava naquela entediante manhã de quarta-feira ensolarada.
                

8 de fev. de 2012

Se você jurar


                Levantou. Abriu a janela, observou o dia ensolarado de céu azul e nuvens brancas. Respirou fundo, tomou um banho frio. Secou-se com a melhor toalha, bebeu uma xícara bem servida de café. Escovou os dentes e beijou apaixonadamente sua esposa.
                Passou gel e penteou os cabelos para traz, arrumou o bigode e despejou um pouco de colônia no pescoço, peito, punhos e atrás da orelha. Vestiu seu terno preto novo, camisa branca e deu um nó bem dado naquela gravata preta que ganhou de natal. Calçou os sapatos bem engraxados, colocou o cantil com conhaque no bolso de dentro do paletó, a carteira no bolso de traz da calça e saiu.
                - Vou comprar cigarros.
                Vinte anos depois ela ainda espera na janela, como aquelas namoradeiras das casas de Minas Gerais, o radinho a pilha tocando chorinhos e o olhar triste no horizonte sempre a lembrar do que pensava naquela fatídica manhã.
                “Engraçado, não me lembro de ver o Astolfo fumar”

6 de fev. de 2012

Segundo dia.


Não sei ainda como começar. Não dormi direito à noite, mas acho que o diário está funcionando. Não lembraria nunca dessa maldita reunião de hoje com o delegado. As coisas estão estranhas. O ar está pesado, meu otimismo de ontem sumiu... Se esse outono não passar logo as coisas vão ficar feias por aqui.
                Não tinha muito que fazer, fritei um ovo, preparei café e servi uma caneca farta meiada com uísque. O Apartamento está uma verdadeira zona, parece que foi revirado por vagabundos.
Terão sorte se conseguirem achar algo de valor aqui.
 Tomei um banho, separei minhas roupas para a lavanderia.
Lembrete: buscar roupas amanhã na avenida principal, passar no alfaiate e no mercado do francês. Reunião com o dono do estábulo.
 Tenho trinta e sete horas até amanhã, imagino o que seria do mundo se os dias fossem menores. Aquele pedaço de merda que chamam de carro estragou de vez, tive de acionar o seguro, preciso resolver logo as merdas dessa cidade.
Minha mãe nunca confiaria em mim não entendo porque essas pessoas confiam.
Vesti uma camiseta preta, um blazer e jeans. Odeio ir trabalhar vestido como mendigo. Chegando no departamento minha secretaria não estava tão alegre quanto ontem, os olhos hoje inchados pareciam ter levado uma surra, o rabo continuava incrível.
“Surra de piru” pensava.
“Senhor, deixaram recado do sanatório, ela já pode ir pra casa amanhã” dizia ela.
“Droga! As coisas estão ficando complicadas por aqui, eles não poderiam segura-la por mais uns dias? Ligue para uma diarista e mande dar uma geral no meu apartamento ”
“Tem um rapaz com sotaque estranho que te esperou aqui até agora pouco também, não deixou telefone.”
“Esse filho da puta pode esperar, estou indo para reunião com o dono do livro”
O delegado me esperava em sua casa, uma bela casa para um delegadozinho de merda. A empregada me mandou ir direto ao escritório.
“O filho da puta está mesmo atolado na merda...” Era o que ficava na minha cabeça.
- Bom dia Korsakoff... Temos assuntos a tratar.
- Primeiro o livro...
Não vou descrever todo o dialogo, mas hoje com toda certeza foi satisfatório, quando a porra toda vier a tona ninguém vai saber de onde veio o golpe. 

4 de fev. de 2012

Sábado de sol


                - Amor, o que te faria feliz?
                - Hoje?
                - É... Se você não tá feliz agora, o que te faria muito feliz?
                - Qualquer coisa?
                - Aham.
                - Participar da platéia do Raul Gil e uma cerveja gelada.

2 de fev. de 2012

Pela décima vez


                - É pedir demais? Eu só quero ser feliz amando alguém.
                - Tenso hein?!
                - E você?
                - Que tem eu?
                - Nunca quis algo com tanta força a ponto de doer não ser capaz de alcançar, a ponto de ficar com raiva de Deus e do Diabo, de querer abandonar o mundo e tudo que você já construiu? Nunca quis tanto algo a ponto de sonhar com aquilo todos os dias e perder noites de sono quando pensa que não é fácil de alcançar?
                - Já...
                - E o que é?
                - Super poderes!

Azia


                Bati na porta. Abriram.
                - Entre...
                Entrei.
                - Tire os sapatos.
                Tirei.
                - Então, porque da visita?
                Dei-lhe um murro na barriga, calcei os sapatos e sai. 

1 de fev. de 2012

Primeiro dia.


             Hoje começo esse diário. Percebi que minha memória já não é lá das melhores, mal me lembro o que pedi no almoço de ontem, mas esta manhã estava clara, me levantei. Tinha casos a resolver, bucetas a fuder e uísques a beber. Minha filosofia de vida nunca foi tão satisfatória.
                A vida não deveria se complicar mais do que isso. Tomei um banho, servi uma dose graúda de vodka com gelo e peguei meu terno cinza. Era o único que não estava sujo.
                Enquanto colocava meu chapéu pensava: “Hoje merda nenhuma vai me atingir”
                O vento frio e a possibilidade de nevasca me fizeram pegar meu sobretudo. Odeio roupas surradas. Parei na loja de bebidas no caminho do departamento e comprei dois maços.
                “- Filtro vermelho
                - O senhor sabe que é mais forte, né?!
                - O problema é meu, filho da puta...”
                Irônico como não tenho paciência para pessoas enxeridas. Meu carro começa a dar defeito novamente, acho que é o radiador. Preciso colocar logo a mão nessa bolada antes que a porra toda estoure e eu tenha que engolir como as putas do lado oeste.
                O clima no departamento estava cinza, o humor da secretaria radiante, foi bem comida a filha da mãe. Até que não seria de todo mal colocar as mãos e a boca naquele rabo.
                “- Dois recados pro senhor... Um deles diz ser o dono do livro e o outro diz querer tratar sobre o carrossel”
                Esses viados estavam tentando me fuder, não existe outra explicação. Eu deveria colocá-los de quatro e mostrar que não se brinca com o maior investigador dessa merda de cidade.
                Calma rapaz, pensei na hora. Você não é mais um muleque para agir por impulso, já dizia D. Corleone: “Só mulheres e crianças podem ser descuidados”  
                Olhava com certo tesão aquele quadro rabiscado, a sensação que tinha é que estava prestes a resolver tudo, a cidade se curvaria diante de mim. Seus ratos hipócritas da alta sociedade lamberiam minhas bolas. Estava animado demais para almoçar.
                Retornei as ligações de um telefone publico próximo ao bar de motoqueiros. Reuniões marcadas. Só preciso esperar a data certa e rezar a Deus ou ao Diabo para que ninguém mais do departamento chegue aos resultados que tive.
                O resto do dia foi inútil. Aqueles filhos da puta estão com o queijo, mas eu tenho a faca e eles ainda não fazem idéia disso.
                É bom que tenha tudo registrado, caso acabe com um sapato de concreto no fundo do rio. Ainda vai um tempo até me acostumar com essa idéia de diário. 

31 de jan. de 2012

E se não der


                Triste mesmo é aquele momento quando você percebe que até seu pau sente falta dela. Aqueles calafrios que sobem com uma ereção meia bomba e o aperto no coração por não tê-la por perto.
                Sinto como se fosse o melhor guitarrista da melhor banda do mundo que acabou de se separar. A única coisa que consigo pensar em fazer é sentar e esperar pelo retorno.

29 de jan. de 2012

Lovesong


                Não interessa muito os outros aspectos quando se trata de relacionamentos... Acho que “Eu te amo” é a gota d’água. A partir destas três palavras a relação assume a forma de algo pesado com rodas e sem freio numa ladeira de 110° o final é uma avenida de tráfego intenso e o sinal está fechado pra vocês.
                

24 de jan. de 2012

Well I wonder


                Existem noites em que pessoas se encontram, acendem seus cigarros, bebem suas cervejas, ouvem música e transam como se não houvesse amanhã. Há noites em que pessoas assistem filmes, bebem algum vinho vagabundo e trepam como se quisessem tirar de dentro algo que não poderia nascer.
                Em noites assim alguém se sente só, fora do contexto, sabe?  
                É como se o mundo não fizesse mais sentido e fosse preciso se encontrar, te encontrar. Não é porque alguém te completa. Isso não acontece mais. É porque alguém te faz feliz.
                Você gosta do cheiro e de como a cabeça dela encaixa perfeitamente em seu peito na hora de dormir. É dela que eu e você precisamos.
                Mas nem sempre se têm tudo que quer ou tudo que é necessário. Me pergunto se mais um maço e outra dose pode ajudar...

19 de jan. de 2012

Querida L.


                Te escrevo pra dizer tudo aquilo que não posso te falar pessoalmente. Não te digo pessoalmente por conta dele, essas coisas te forçariam a se afastar de mim, e eu não quero isso.
                Você já foi minha, por uma tarde ou duas.
                Era só minha, com beijos de amora e a brisa fresca que entrava com alguns raios de sol pela sua janela. Você tem belas pernas. Já disse que te quero, quero mais do que duas vezes isoladas, eu te quero para te fazer sentir tudo isso que eu sei que posso te proporcionar.
                Garotos são sempre incompetentes quando conseguem uma mulher.
                Não quero te iludir, você sabe melhor do que ninguém o meu valor. Eu só queria mais uma chance para te fazer se sentir como uma mulher de verdade e não mais um troféu a ser exibido.
                Sei que não tenho o suficiente para ser levado a serio, mas saiba que você se tornou alguém importante para mim.
                Não consegui escrever muito, mas você sabe que sou de poucas palavras. De um homem infielmente seu, J.

11 de jan. de 2012

Notas de um observador


Já dizia Linus Van Pelt (meu personagem favorito): “Em todo este mundo, não há nada mais inspirador do que ver alguém que acabou de se livrar de uma obrigação”.
Durante certo período de ócio e analisando crianças que deveriam estar sob a minha vigilância percebi que certas coisas ajudam definir a personalidade e formam caráter.
Hoje divago sobre “A caminhada da coragem”.

 Honra não vem de berço.
Há um período certo entre os primeiros 10 anos de vida, em que a criança tem que cumprir a caminhada da coragem - O simples fato de apagar a luz do quarto e caminhar lentamente até a cama.
Pode parecer besteira, mas isso é importante. A criança aprende a conviver com os medos, encará-los e ocasionalmente vencê-los. Essa caminhada faz parte dos primeiros passos pra que essas crianças se tornem seres dignos e de respeito.
Desde cedo aprenderam a vencer o escuro, a lutar sozinhas contra monstros e espectros se que escondem sob a escuridão, e alem de tudo, aprendem alcançar seus objetivos com sucesso.
Pra quem nunca conseguiu concluir a caminhada - ou qualquer outro passo - eu cito novamente LVP: “Eu gosto da humanidade. O que eu não suporto são os humanos”.

4 de jan. de 2012

I would never wanna be young again


                Não sei ao certo se é depressão profunda, melancolia ou se estou somente cercado por idiotas.
                Acredito mais na ultima opção...

31 de dez. de 2011

Voy a apagar la luz


                Virou rápido e esbarrou em um copo de vidro em cima da pia, o copo veio ao chão como todas as expectativas e planos que se fazem no primeiro dia do ano. Ele olhou com desprezo pra todos os cacos que refletiam, graças a luz e a cor do piso, retalhos de seu rosto.
                Com os pés descalços, olhos vermelhos e sem calças, caminhou rumo a sala segurando o prato com seu pão com manteiga, pisando nos cacos, perdendo seu sangue e idolatrando a solidão.
                -É isso. Um homem não deve ficar sozinho, não por muito tempo. Esse ano arrumo um cachorro.

29 de dez. de 2011

Never Forget

                A calçada rachada era testemunha da apatia que eles sentiam pelo mundo. Eram rapazes comuns, com hábitos cruéis e sentimentos isolados. Não tinham muito que fazer.
                Batiam em alguma outra turma nas horas vagas.
                Pichavam muro pra matar o tempo livre.
                Enchiam a cara e fumavam maconha na pista de skate.
                Mas o que os unia de fato era o amor não correspondido por alguma mulher. Essa turma de jovens meliantes mantinha no peito guardado sob uma pedra, tão pesada quanto queriam que fosse, o mais nobre sentimento por alguém que já fora no passado uma donzela indefesa deflorada por algum crápula com o cu cheio de anabolizantes e cérebro capaz de fazer amebas se sentirem físicas quânticas.
                Alem do sentimento havia o silencio, quebrado inúmeras vezes por um violão, uma gaita, um trago de maconha e um gole de conhaque. Juventude transviada. É a conseqüência das mulheres na vida de jovens promissores.

27 de dez. de 2011

Oh, sweet Mary

                A casa não era das melhores, um pouco de mofo na parede, escritas com tinta preta em linhas tortas.
                “É como se Deus tivesse escrito essa merda” Pensava ele.
                Caminhou até o balcão improvisado, a velha senhora de bigode e barba mal feita se vira rapidamente, e, lentamente retira a cerveja quente da geladeira azul enferrujada. Com toda a classe que seus pelos na orelha lhe permitiam ter, pegou um copo americano ensebado e entregou ao rapaz de semblante cansado e pele pálida.
                “Daqui a pouco as menina tão vindo... É que agora era hora do descanso e elas tava barrendo o terreiro” Disse a senhora do sorriso amarelado.
                Escorado naquela mesa de sinuca fodida esperava por mais uma mulher ferrada enquanto o radio a pilha que estava ao lado de um uísque barato na prateleira de cima, tocava algum bolero antigo. Dessa vez era diferente, era a segunda vez que voltava e pagava a hora apenas pra saber dela.
                Aquela menina realmente bagunçou a cabeça desse rapaz. Se ao menos tivesse sido a primeira ou segunda. Se ao menos ela se cuidasse e procurasse estudar.
                Mas a vida é assim, cruel como uma jovem prostituta e impiedosa como uma cafetina ao encontrar garotinhas abusadas por entre as linhas tortas do mundo.

25 de dez. de 2011

Let it snow

-Sua mãe e eu resolvemos... Vamos te dar um presente de natal. O que você quer?
-hum...
                Poderiam perguntar o que Hitler queria quando chamou toda Alemanha, ou Putin ao fraudar as eleições. Eles sabem a resposta.
O que eu quero?
Já quis alguém, já quis um carro, já quis andar a pé e vender minha moto, já quis ir a praia, já quis não sair do quarto por uma semana.
Eu.
Já.
Quis.
 Queria aprender a usar o ponto de exclamação, mesmo que algum escritor no passado diga que é como rir da própria piada, queria dominar o mundo, zerar god of war e acabar com o tormento de Kratos. Queria me vingar de tudo que alguém já me fez passar e de todas as noites que passei em claro encarando a folha em branco.
Presente, talvez eu queira o passado ou um pouco de futuro, quem sabe nenhum dos três.
 -Acho que hoje eu não quero nada, mas obrigado mesmo assim por perguntar.