28 de mar. de 2012

Rua Antonio Rocha



                Aí num sábado na parte da tarde, mais precisamente às dezesseis horas e quatorze minutos, você se depara com o som de passos na rua vazia pela qual vagava, alguém te segue.
                Masca o chiclete, já sem sabor, com mais força. Passa a mão no bolso confere o celular e as chaves, no outro bolso alguns trocados do pão.
                “É o fim!”
                Os passos aumentam o som, velocidade. Aquela senhora de oitenta e dois anos que mora na rua de cima da sua casa te ultrapassa apressada “Tô perdendo o Raul Gil”. Suspira aliviado. 

27 de mar. de 2012

Maria Joana


                Na noite de sábado fumou maconha. Não que nunca tivesse fumado, mas ela se sentiu diferente. O clima, as pessoas o violão... Não sei explicar, se sentiu viva.
                Na segunda fez a mochila.
                Na terça limpou a conta no banco.
                Na quarta aprendeu a fazer pulseirinhas.
                Na quinta queimou cartões de credito.
                Na sexta trancou o curso.
                E no sábado exatamente sete dias depois, caiu no mundo.
         De vez em quando sinto falta daquela bunda.

23 de mar. de 2012

Limpeza no corredor 7


                Si perdeu da mãe naquela manhã de quarta-feira enquanto escolhia qual cereal levar. Era um ritual. Não que adiantasse muito, pois sempre levava o mesmo do elefante com a caixa marrom que era de chocolate, mas ele gostava de pensar qual seria o gosto daquele vermelho com tucano ou o outro que tinha um raio e brinquedos chamativos. Pegou a caixa e se deu conta que estava perdido.
                Andando por aqueles corredores, o coração batia mais rápido “não vou achar, não vou chorar”. Não estava na sessão de limpeza ou nos grãos. Deparou com aquela luz branca e um frio aconchegante que arrebatava o calor goiano. Tirou a cueca – velha e um numero menor que o certo – da bunda e ficou ali, olhando abobalhado para aquela imensa variedade de iogurtes, pudins, flans, queijos e frios em geral. Não sabia o que chamava mais atenção, o que parecia mais saboroso. Sabia com toda certeza que não comeria aquele tal de requeijão. Na escola, quando queriam deixar aquela pobre criança nervosa o chamavam de Jão.
                “Algo que termina com Jão não pode ser bom”
                O nojo cedeu espaço para felicidade, a mãe acabara de sair do corredor de enlatados e vinha ao seu encontro. O desespero veio em seguida, ela pegou um pote.
                Já em casa, relutante, não comeu do requeijão.
                Os dias passaram e como sempre seu cereal acabou, era comum. Comia tanto daquela porcaria que não dava nem quinze dias depois das compras e já estava sem. A mudança aconteceu naquela sexta de recesso. Era reunião de professores ou qualquer outra coisa do tipo, não teve escola. Ficou em casa a tarde toda. Foi nesse dia que conheceu o tio Ernesto, um homem de barba mal feita que passou horas trancado no quarto com a mãe. A fome era muita e só tinha requeijão e pão.
                “Quando eu for grande vou proibir os ÃOs”
                A mãe não abriu a porta e ele se rendeu aquela pasta branca. Como quem pega um bixo morto e em estado avançado de putrefação enfiou a faca no pote e passou com cautela no pão. A primeira mordida. Tão saborosa e mágica quanto todas as outras que viriam.
                Comeu metade do pacote de pão de forma. Por volta das cinco o tio Ernesto saiu do quarto, tomou um gole grande de água com a boca direto na garrafa “mãe não deixa meu pai beber água assim” ele riu e o garoto continuou a passar requeijão no pão. Passava cada vez mais e se lambuzava. Tio Ernesto foi embora. O pai chegou algumas horas depois, não tinha janta e começou na cozinha a gritar com a mãe, só parou quando saiu pouco tempo depois muito bravo de casa.
                Os dias passaram ligeiro.
                O mundo era maravilhoso, ele, o requeijão e o pão. O mês acabou março chegou, e, no primeiro sábado foi dia de compras. Pai, mãe, filho. Foi direto para aquele canto do mercado, “pedacinho do paraíso” olhou os tipos, as marcas, imaginava se teriam o mesmo sabor. Já empunhava aquele da vaquinha com embalagem transparente, queria do amarelo. Era um amarelo bonito, não tardou a mãe saiu do corredor de enlatados indo ao seu encontro. O pai que estava na sessão de bebidas chegou mais rápido ao seu lado “posso levar o amarelo também?”, “Não!”, a mãe encarando o pai pega do amarelo e do branco. Euforia, acho que essa é a palavra certa. Sai o menino empolgado empurrando o carrinho rumo ao caixa enquanto o pai faz aquela expressão nervosa com a mãe.
                Em casa o som dos gritos, portas batendo e pratos quebrando eram a sinfonia que embalavam as tardes amorosas. Jão, requeijão e o pão. “O mundo deveria ser feito de ÃOs”.
                Aquela terça de tarde chuvosa marcava dramaticamente o fim do pote com requeijão amarelo, seu sanduiche favorito com dois tipos de requeijão, e só, não teria mais dois sabores. O pai disse algo parecido com “Tô de mudança filhão, a gente vai poder jogar bola dentro de casa quando você for me visitar, te ligo hein?!” nos dias futuros ele não ligou e o filho não visitou. O requeijão branco não durou muito também e o tio Ernesto vinha sempre visitar a mãe.
O tio Ernesto, o Joaquim, e o seu favorito o tio Astolfo que sempre trazia uns doces molinhos que vinham numa casquinha de sorvete “O tio Astolfo tem um cheiro engraçado” e a mãe sempre feliz só se preocupava com a tristeza repentina do filho.
Marcou de passear “vou te levar na tia Márcia”.
                Na placa logo na entrada havia um tridente desenhado em preto ao lado do nome dela. “A tia Márica deve trabalhar pro aquaman”. Bom, não trabalhava. Mas falaram dele e de outros heróis e brincadeiras e da escola, do parquinho com areia, daquela pracinha e falaram também do requeijão durante aquela tarde e as outras que viriam. 

22 de mar. de 2012

Era um dia de sorte.


                Sabe aqueles dias cinza onde o sol manda sua claridade esquentar um pouco de ar criando o mormaço chato? Então, aquele domingo estava assim, ou seria sábado?
                Isso não é tão relevante.
                O que importa é que ele acordou por volta de onze da manhã com uma ressaca de vodka barata e cigarros falsificados. Tomou um banho e foi para cozinha onde sua família o esperava com uma felicidade irritante - como se tivessem saído de um comercial de manteiga – um sorriso no rosto, o almoço pronto e já na mesa com tudo aquilo que achavam que ele gostava.
                O assunto durante almoço não foi outro.
                “Você tem de manter a calma”, “Vai tranquilo”. Nem se dignaram, a saber, que horas chegou na noite anterior e o que fez. Sentiam orgulho dele. Isso incomodava.
                Terminou o almoço foi para o quarto pegou a primeira camiseta limpa que achou, uma bem velha e surrada escrita Ramones, uma camisa xadrez marrom com branco e o resto do cigarro no maço vermelho amassado com isqueiro dentro.
                Chegou, faltavam cinco minutos para que o portão fechasse. Só deu tempo de pegar um kitzinho que algumas pessoas do seu colégio davam. Vinha um suco, um copo de água mineral e uma barra de chocolate light. O suco era de maracujá. “Hoje deve ser meu dia de sorte” pensava ele com todo seu sarcasmo enquanto sentava em seu lugar predefinido. Faltava ainda meia hora para o inicio da prova.
                “Alguém quer?”
                Foi o que ele disse oferecendo a caixinha amarela desbotada meio suada que seria aceita por um futuro amigo. Mas o que chamou atenção foram aqueles olhos que Machado de Assis já havia descrito muito bem. “Olhos distantes” Mick diria isso, mas a cabeça doía muito e seria uma prova extensa, pelo menos era o que achava.
                Terminou tudo, faltavam ainda duas horas para que pudesse sair. Tirou então a camisa de flanela, dobrou e a colocou em cima da prova, dormiu o sono dos justos. Não que ele fosse, mas para aquelas pessoas em volta ele era.
                Acordou uma hora depois com aqueles espasmos musculares involuntários que geralmente vem depois de sonhos estranhos.
                Limpou a baba da bochecha e olhou para as janelas na parte de traz da sala. Bom, era a intenção olhar para lá. Seus olhos pararam e focaram naquela garota meio mulher meio cigana.
                Cigana no sentido bom da palavra, daquelas sensuais e misteriosas com olhos marcantes que focavam nele enquanto o resto do rosto trazia uma feição assustada.
                A prova acabou.
                Ele se levantou, entregou o gabarito e saiu antes de todos naquela sala. Caminhava pensando nas bundas que cortavam seu caminho, no jogo do seu time e entre tantas coisas na cabeça pensava também nos olhos distantes daquela menina mulher – que mais tarde viria conhecer muito bem – o mundo parecia simples. 

16 de mar. de 2012

Stage - Clear


                O céu nublado previa um temporal a qualquer momento, e, mesmo assim lá estavam eles. Aquele senhor de cavanhaque que mesclava pelos brancos, cinzas e pretos com o cabelo tão rajado quanto a barba e ainda mais bagunçado que o meu, encarava o pobre rapaz que com muito custo se lembrava dos ensinamentos de seu antigo mestre chinês.
                “Seja como água.”
                E o rapaz respirava fundo e encarava o velho de sorriso sarcástico.
                “Sua vez.” Disse o senhor após reprovar um homem de calça azul manchada com graxa e suor.
                Tremia como um bambu em noite de tempestade, ou um rio em plena cheia. O problema das tempestades é o mesmo das cheias, elas não duram para sempre.
                Já enfrentara desafios antes, mas este em particular lhe metia medo. Eram coisas demais em jogo.
                Travou os músculos, limpou a mente e agiu como água. Moldou-se ao necessário, deu partida no carro, ligou a seta e fez a volta perfeita sob o comando daquele veiculo automotor problemático.
                No final daquele silencioso jogo de poder e habilidade, o velho ranzinza parabenizou e com dois tapinhas nas costas, um bilhete escrito aprovado e certa decepção mandou para casa o jovem homem que se sentia agora mais leve e firme.

O sabor da falta


                E se eu cantar pra saudade e ela não vier com seu melhor vestido vermelho, ou preto?
                Se ela vier por vir, sem nada amargo ou até mesmo aquele agridoce do ciúme?
                Se eu cantar pra saudade como quem pede glicose na veia.
                Ela vem como fogo e incendeia?
Mas e se não vier com tanto ardor ou a boca de cereja?
                Dizem que a dança da chuva só funciona porque os índios não param enquanto não chove, então eu canto pra saudade até ela correr na minha veia como um rio carregado e a luz que rompe em noite clara as celas da cadeia.
                Assim eu canto, canto pra saudade tecer na minha cabeça. 

14 de mar. de 2012

Terceiro dia



                Noite passada não fui para casa, eram coisas demais a resolver, tirei um cochilo de no máximo quinze minutos no sofá do departamento. Sonhei com ela.
                Na verdade eu sonhei com o dia em que nos conhecemos.
                Ela deve ter deixado todos eles doentes, não existe outra explicação para o fato de liberarem-na assim tão cedo. Me recuso acreditar que ela tenha progredido no tratamento.
                Acho que finalmente estou pegando o jeito disso, é como se eu fosse uma virgenzinha no auge da puberdade sofrendo pela falta de amigos.
                Tentei em vão ligar os pontos durante a noite “faltam peças demais nesse maldito quebra cabeças, se ao menos aquele moleque ainda estivesse vivo”. O dia nasceu, não demorou muito minha secretaria chegou. Não fazia ideia de que ela chegava tão cedo ao trabalho, o expediente só começava as 10 e ela já estava lá arrumando suas coisas. No radio tocava boleros antigos mesclado com noticias do Vaticano.
                Parece que finalmente vão reconhecer aquele hippie como messias. Eu digo uma coisa, para se levantar e encarar de peito aberto o que aquele filho da puta encarou é preciso culhões.
                Ela está radiante, ainda choramingava enquanto organizava a papelada em suas gavetas. Não tinha me visto enrolado na toalha ali em frente ao quadro com meus rabiscos.
                Sempre preferi o chuveiro do departamento.
                É mais quente e sai mais água que o do meu apartamento. A pobrezinha levou um susto quando me viu. Perguntei o que tinha acontecido e ela não se segurou, me abraçou em prantos. Eu sentia satisfeito aqueles seios médios em meu peito, ela me contou sobre seu namorado e as atrocidades que ele vinha fazendo de uns tempos para cá. Abriu seu coração. Dizia que estava carente e que gostava das minhas cicatrizes.
                Eu mal podia acreditar.
                Ela me beijou, aqueles lábios macios com gosto de creme dental de menta, aqueles seios firmes e o rabo mais lindo que eu já vi, seriam finalmente meu. Os outros funcionários só chegariam daqui algumas horas, aproveitei para fazer com ela o que sempre quis desde quando vim transferido de Goiânia. Abocanhei aquela linda buceta e só parei quando ela implorava. Fodemos por horas.
                Sem duvida a melhor foda que tive desde que ela foi internada.
                O dia mal tinha começado.
                Ela saiu feliz para buscar minhas roupas na lavanderia, voltou rápido e pedindo mais. Se eu soubesse que ela teria tanto tesão assim nas minhas cicatrizes e tatuagens, iria trabalhar sem camisa todos os dias.
                Vesti meu terno preto, camisa branca e minhas botas pretas.
                Agora sim era gente.
                Ela me disse que a diarista tinha ido ao apartamento e que iria mandar agora cedo ainda um faz tudo resolver os problemas com a fiação e o encanamento. Eu só conseguia pensar “meu pau deve ser de ouro”.
                Fui para reunião com o dono do estábulo.
                Cheguei naquela fazenda, quatro mil alqueires de terra em um dos bairros mais caros da cidade. Eu tenho que acabar logo com esse esquema, quero esse bolo todo pra mim chega de dividir com esses vermes.
                Ele me esperava em um estábulo em construção, dois guarda costas. Acho que eram russos ou alemães a julgar pelo tamanho e a cor da pele.
                - Korsakoff... Pontual como sempre.
                - É...
                - Soube que você anda se informando sobre assuntos que não lhe dizem respeito.
                E a conversa prosseguiu por horas. Aqueles dois caras pareciam cães prontos a atacar, mas não me intimidaram, eles não seriam tão retardados a ponto de matar alguém como eu assim. Esses filhos da mãe eram inteligentes.
                Sai de lá faminto, alegria me causava isso.
                Passei na padaria do francês. “Pierre, me vê o de sempre e café preto.
- Korsakoff, meu nome é Genet, JEAN GENET e não Pierre... Porra!
- Pra mim vocês franceses são todos iguais, como aqueles malditos asiáticos. Uma grande copia, um lote inteiro de Pierres e Miagis.
- Sempre carismático, não é mesmo filho da puta?
- Faz parte do meu charme...
- As coisas estão pesadas. Fiquei sabendo que os ucranianos já tomaram metade da cidade.
- Porra!
- O quê? Você sabe de algo não é?
- Viado, preciso ir... Cancela o pedido e me dá só o café.”
A porra ficou seria.
Passei a mão no bolso do paletó e peguei meu cantil, completei com uísque. Meu humor acabava de ir para o mesmo lugar que a boca da minha secretaria, o saco.
Voltei correndo para o departamento.
- Senhor, aquele rapaz de ontem esteve aqui hoje de novo e o pessoal do sanatório disse que você precisa ir rápido.
Mal tive tempo de colocar todas aquelas informações no quadro...
- E meu apartamento?
- Limpo e arrumado.
Sai as pressas. Não tinha considerado isso, ainda.



...

8 de mar. de 2012

Foi lindo...


                -E o que é que você acha?
                -De verdade?
                -É...
                -Moça... Eu acho que até pra levar surra de piru na cara tem que ter respeito.

Aquela mulher


                A obra da minha vida. É isso que vocês são, eu não sou nada sem vocês. O que escrevo seria vazio, falso e sem vida.
                Vocês me inspiram.
                Quando Roger canta: “Vou te contar o que me faz andar. Se não é por mulher não saio nem do lugar” Ele diz que vocês são a causa e o efeito do mundo. É por vocês que nós, os homens, nos metemos em roubadas, fumamos, bebemos, brigamos, choramos e abrimos mão de um mundo de possibilidades por apenas uma chance.
                É graças a vocês que pensamos em ter filhos.
                Mulheres sempre mereceram o mundo. Elas são capazes de transformar o mais forte homem em uma criança triste e indefesa, são capazes também de fazer o mais simples plebeu se tornar o maior e melhor rei.
                Não existem palavras para descrever o que sinto por vocês.

6 de mar. de 2012

Até que a morte os separe


                Pois bem. A noite estava quente, quase insuportável – como todas as noites de verão em Goiás – Acho que eu vestia uma camisa preta justa, jeans surrados e minhas botas negras e engraxadas. Tocaram aquelas músicas clichês, com instrumentos toscos.
                A marcha nupcial, se não me engano, saiu de um saxofone. A noiva estava linda, emocionada e sua família parecia explodir por toda aquela transformação. Finalmente o patinho feio virou um cisne.
                Eu particularmente gosto de casamentos.
                É o tipo de ocasião onde as mulheres estão sensíveis e mais propensas a acreditar que isso é possível para todas. Bom, não é!
                Me aproveito disso. Gosto de dizer que sonho em ter três filhos, uma cerca branca, um cachorro e uma chácara para passar os fins de semana, sempre dá certo. As vezes inovo e tento contos novos.
                A estória que invento não interessa muito, a trepada que sai dela sim.
                O que sinto realmente vontade de fazer naquele período durante a cerimônia é entrar correndo, segurar a noiva e gritar para o babaca no altar: “Corre Forrest, corre. Salva a sua vida enquanto há tempo, ela vai engordar e te culpar por isso, o sexo pode ainda ser bom, mas aquela sua mania de comer na sala com os pés na mesinha tem que acabar... Corre pela sua vida rapaz!”
                Mas eu não faço. Deveria me sentir mal por me manter distante enquanto pessoas queridas, ou não, investem tanto em uma instituição falida.
                É verão e a maioria têm o costume de fazer loucuras, só espero que o tempo seco de agosto não chegue até aqueles corações recém unidos.

4 de mar. de 2012

Dia de sol


                Ela passa e meu pau palpita.
                Acho que estou amando, de novo...





Dedicado aos meus amores da Psicologia.

Minha


                Não gosto de pronomes possessivos. Não gosto de pronomes possessivos empregados de forma errada: “Dorme bem meu anjo”.
                O que você sabe dela? O que ela é pra você se não mais um troféu a ser exibido?
                A forma correta de resposta seria: “Não sou seu anjo. Não sou um anjo, e, sou apenas dele...” Apontando para o cara de botas pretas, cigarro na boca, camisa branca e duas doses de uísque a mais na mente.

15 de fev. de 2012

Uma vez só na vida


                -A próxima é sua...
                -Tá. Me diz uma coisa?
                -Hmm
                -O que aconteceu com aquela menina que você comia?
                -Qual?
                -Aquela que fazia uns bicos de modelo, dormia sempre na sua casa, loirinha com a bunda linda.
                -Ficou noiva.
                -Serio?
                -É. Uma tarde dessas lá em casa a gente se pegava, o celular dela tocou era o namorado dizendo que estava com problemas...
                -E aí?
                -Ela terminou de me chupar, limpou o rosto e foi atrás dele. Acho que se casam em março.
                -Já tinha ouvido falar em beijo de despedida, mas boquete é a primeira vez...
    -É o tipo de coisa que só acontece uma vez...
    -Como é que você tá?
                -Bem obrigado.
                -Idiota, com relação a ela.
                -Tranquilo, acho que vou sentir falta daquela boca. 

9 de fev. de 2012

Me tem, amor


                “Vou fingir que ainda to dormindo, ele sempre acorda animadinho” Pensava enquanto ele se levantava. Virou pro lado e deu uma resmungada, como de quem briga no sonho. Sentiu o cheiro característico do café sem açúcar e se sentiu levemente irritada.
                “Daqui a pouco ele vem passar aquela colônia fedorenta”
                - Bom dia.
Estranhou o beijo, era o mais caloroso que já havia ganhado e se permitido dar em anos. “Hoje faço uma comidinha gostosa pra ele, se não fosse essa pasta de dente vagabunda eu até que podia abrir uma exeção”
                Irritou-se novamente com a toalha molhada em cima da cadeira de frente para a penteadeira e com a xícara suja de café na pia da cozinha. “Pelo menos hoje não tem migalhas de pão”
                - Vou comprar cigarros.
                Enquanto ele saía pela porta ela corria para a janela, gostava de ver quando ele dobrava a esquina. “Engraçado, não me lembro de ver o Astolfo fumar” Era o que pensava naquela entediante manhã de quarta-feira ensolarada.
                

8 de fev. de 2012

Se você jurar


                Levantou. Abriu a janela, observou o dia ensolarado de céu azul e nuvens brancas. Respirou fundo, tomou um banho frio. Secou-se com a melhor toalha, bebeu uma xícara bem servida de café. Escovou os dentes e beijou apaixonadamente sua esposa.
                Passou gel e penteou os cabelos para traz, arrumou o bigode e despejou um pouco de colônia no pescoço, peito, punhos e atrás da orelha. Vestiu seu terno preto novo, camisa branca e deu um nó bem dado naquela gravata preta que ganhou de natal. Calçou os sapatos bem engraxados, colocou o cantil com conhaque no bolso de dentro do paletó, a carteira no bolso de traz da calça e saiu.
                - Vou comprar cigarros.
                Vinte anos depois ela ainda espera na janela, como aquelas namoradeiras das casas de Minas Gerais, o radinho a pilha tocando chorinhos e o olhar triste no horizonte sempre a lembrar do que pensava naquela fatídica manhã.
                “Engraçado, não me lembro de ver o Astolfo fumar”

6 de fev. de 2012

Segundo dia.


Não sei ainda como começar. Não dormi direito à noite, mas acho que o diário está funcionando. Não lembraria nunca dessa maldita reunião de hoje com o delegado. As coisas estão estranhas. O ar está pesado, meu otimismo de ontem sumiu... Se esse outono não passar logo as coisas vão ficar feias por aqui.
                Não tinha muito que fazer, fritei um ovo, preparei café e servi uma caneca farta meiada com uísque. O Apartamento está uma verdadeira zona, parece que foi revirado por vagabundos.
Terão sorte se conseguirem achar algo de valor aqui.
 Tomei um banho, separei minhas roupas para a lavanderia.
Lembrete: buscar roupas amanhã na avenida principal, passar no alfaiate e no mercado do francês. Reunião com o dono do estábulo.
 Tenho trinta e sete horas até amanhã, imagino o que seria do mundo se os dias fossem menores. Aquele pedaço de merda que chamam de carro estragou de vez, tive de acionar o seguro, preciso resolver logo as merdas dessa cidade.
Minha mãe nunca confiaria em mim não entendo porque essas pessoas confiam.
Vesti uma camiseta preta, um blazer e jeans. Odeio ir trabalhar vestido como mendigo. Chegando no departamento minha secretaria não estava tão alegre quanto ontem, os olhos hoje inchados pareciam ter levado uma surra, o rabo continuava incrível.
“Surra de piru” pensava.
“Senhor, deixaram recado do sanatório, ela já pode ir pra casa amanhã” dizia ela.
“Droga! As coisas estão ficando complicadas por aqui, eles não poderiam segura-la por mais uns dias? Ligue para uma diarista e mande dar uma geral no meu apartamento ”
“Tem um rapaz com sotaque estranho que te esperou aqui até agora pouco também, não deixou telefone.”
“Esse filho da puta pode esperar, estou indo para reunião com o dono do livro”
O delegado me esperava em sua casa, uma bela casa para um delegadozinho de merda. A empregada me mandou ir direto ao escritório.
“O filho da puta está mesmo atolado na merda...” Era o que ficava na minha cabeça.
- Bom dia Korsakoff... Temos assuntos a tratar.
- Primeiro o livro...
Não vou descrever todo o dialogo, mas hoje com toda certeza foi satisfatório, quando a porra toda vier a tona ninguém vai saber de onde veio o golpe. 

4 de fev. de 2012

Sábado de sol


                - Amor, o que te faria feliz?
                - Hoje?
                - É... Se você não tá feliz agora, o que te faria muito feliz?
                - Qualquer coisa?
                - Aham.
                - Participar da platéia do Raul Gil e uma cerveja gelada.

2 de fev. de 2012

Pela décima vez


                - É pedir demais? Eu só quero ser feliz amando alguém.
                - Tenso hein?!
                - E você?
                - Que tem eu?
                - Nunca quis algo com tanta força a ponto de doer não ser capaz de alcançar, a ponto de ficar com raiva de Deus e do Diabo, de querer abandonar o mundo e tudo que você já construiu? Nunca quis tanto algo a ponto de sonhar com aquilo todos os dias e perder noites de sono quando pensa que não é fácil de alcançar?
                - Já...
                - E o que é?
                - Super poderes!

Azia


                Bati na porta. Abriram.
                - Entre...
                Entrei.
                - Tire os sapatos.
                Tirei.
                - Então, porque da visita?
                Dei-lhe um murro na barriga, calcei os sapatos e sai. 

1 de fev. de 2012

Primeiro dia.


             Hoje começo esse diário. Percebi que minha memória já não é lá das melhores, mal me lembro o que pedi no almoço de ontem, mas esta manhã estava clara, me levantei. Tinha casos a resolver, bucetas a fuder e uísques a beber. Minha filosofia de vida nunca foi tão satisfatória.
                A vida não deveria se complicar mais do que isso. Tomei um banho, servi uma dose graúda de vodka com gelo e peguei meu terno cinza. Era o único que não estava sujo.
                Enquanto colocava meu chapéu pensava: “Hoje merda nenhuma vai me atingir”
                O vento frio e a possibilidade de nevasca me fizeram pegar meu sobretudo. Odeio roupas surradas. Parei na loja de bebidas no caminho do departamento e comprei dois maços.
                “- Filtro vermelho
                - O senhor sabe que é mais forte, né?!
                - O problema é meu, filho da puta...”
                Irônico como não tenho paciência para pessoas enxeridas. Meu carro começa a dar defeito novamente, acho que é o radiador. Preciso colocar logo a mão nessa bolada antes que a porra toda estoure e eu tenha que engolir como as putas do lado oeste.
                O clima no departamento estava cinza, o humor da secretaria radiante, foi bem comida a filha da mãe. Até que não seria de todo mal colocar as mãos e a boca naquele rabo.
                “- Dois recados pro senhor... Um deles diz ser o dono do livro e o outro diz querer tratar sobre o carrossel”
                Esses viados estavam tentando me fuder, não existe outra explicação. Eu deveria colocá-los de quatro e mostrar que não se brinca com o maior investigador dessa merda de cidade.
                Calma rapaz, pensei na hora. Você não é mais um muleque para agir por impulso, já dizia D. Corleone: “Só mulheres e crianças podem ser descuidados”  
                Olhava com certo tesão aquele quadro rabiscado, a sensação que tinha é que estava prestes a resolver tudo, a cidade se curvaria diante de mim. Seus ratos hipócritas da alta sociedade lamberiam minhas bolas. Estava animado demais para almoçar.
                Retornei as ligações de um telefone publico próximo ao bar de motoqueiros. Reuniões marcadas. Só preciso esperar a data certa e rezar a Deus ou ao Diabo para que ninguém mais do departamento chegue aos resultados que tive.
                O resto do dia foi inútil. Aqueles filhos da puta estão com o queijo, mas eu tenho a faca e eles ainda não fazem idéia disso.
                É bom que tenha tudo registrado, caso acabe com um sapato de concreto no fundo do rio. Ainda vai um tempo até me acostumar com essa idéia de diário. 

31 de jan. de 2012

E se não der


                Triste mesmo é aquele momento quando você percebe que até seu pau sente falta dela. Aqueles calafrios que sobem com uma ereção meia bomba e o aperto no coração por não tê-la por perto.
                Sinto como se fosse o melhor guitarrista da melhor banda do mundo que acabou de se separar. A única coisa que consigo pensar em fazer é sentar e esperar pelo retorno.

29 de jan. de 2012

Lovesong


                Não interessa muito os outros aspectos quando se trata de relacionamentos... Acho que “Eu te amo” é a gota d’água. A partir destas três palavras a relação assume a forma de algo pesado com rodas e sem freio numa ladeira de 110° o final é uma avenida de tráfego intenso e o sinal está fechado pra vocês.
                

24 de jan. de 2012

Well I wonder


                Existem noites em que pessoas se encontram, acendem seus cigarros, bebem suas cervejas, ouvem música e transam como se não houvesse amanhã. Há noites em que pessoas assistem filmes, bebem algum vinho vagabundo e trepam como se quisessem tirar de dentro algo que não poderia nascer.
                Em noites assim alguém se sente só, fora do contexto, sabe?  
                É como se o mundo não fizesse mais sentido e fosse preciso se encontrar, te encontrar. Não é porque alguém te completa. Isso não acontece mais. É porque alguém te faz feliz.
                Você gosta do cheiro e de como a cabeça dela encaixa perfeitamente em seu peito na hora de dormir. É dela que eu e você precisamos.
                Mas nem sempre se têm tudo que quer ou tudo que é necessário. Me pergunto se mais um maço e outra dose pode ajudar...

19 de jan. de 2012

Querida L.


                Te escrevo pra dizer tudo aquilo que não posso te falar pessoalmente. Não te digo pessoalmente por conta dele, essas coisas te forçariam a se afastar de mim, e eu não quero isso.
                Você já foi minha, por uma tarde ou duas.
                Era só minha, com beijos de amora e a brisa fresca que entrava com alguns raios de sol pela sua janela. Você tem belas pernas. Já disse que te quero, quero mais do que duas vezes isoladas, eu te quero para te fazer sentir tudo isso que eu sei que posso te proporcionar.
                Garotos são sempre incompetentes quando conseguem uma mulher.
                Não quero te iludir, você sabe melhor do que ninguém o meu valor. Eu só queria mais uma chance para te fazer se sentir como uma mulher de verdade e não mais um troféu a ser exibido.
                Sei que não tenho o suficiente para ser levado a serio, mas saiba que você se tornou alguém importante para mim.
                Não consegui escrever muito, mas você sabe que sou de poucas palavras. De um homem infielmente seu, J.

11 de jan. de 2012

Notas de um observador


Já dizia Linus Van Pelt (meu personagem favorito): “Em todo este mundo, não há nada mais inspirador do que ver alguém que acabou de se livrar de uma obrigação”.
Durante certo período de ócio e analisando crianças que deveriam estar sob a minha vigilância percebi que certas coisas ajudam definir a personalidade e formam caráter.
Hoje divago sobre “A caminhada da coragem”.

 Honra não vem de berço.
Há um período certo entre os primeiros 10 anos de vida, em que a criança tem que cumprir a caminhada da coragem - O simples fato de apagar a luz do quarto e caminhar lentamente até a cama.
Pode parecer besteira, mas isso é importante. A criança aprende a conviver com os medos, encará-los e ocasionalmente vencê-los. Essa caminhada faz parte dos primeiros passos pra que essas crianças se tornem seres dignos e de respeito.
Desde cedo aprenderam a vencer o escuro, a lutar sozinhas contra monstros e espectros se que escondem sob a escuridão, e alem de tudo, aprendem alcançar seus objetivos com sucesso.
Pra quem nunca conseguiu concluir a caminhada - ou qualquer outro passo - eu cito novamente LVP: “Eu gosto da humanidade. O que eu não suporto são os humanos”.

4 de jan. de 2012

I would never wanna be young again


                Não sei ao certo se é depressão profunda, melancolia ou se estou somente cercado por idiotas.
                Acredito mais na ultima opção...

31 de dez. de 2011

Voy a apagar la luz


                Virou rápido e esbarrou em um copo de vidro em cima da pia, o copo veio ao chão como todas as expectativas e planos que se fazem no primeiro dia do ano. Ele olhou com desprezo pra todos os cacos que refletiam, graças a luz e a cor do piso, retalhos de seu rosto.
                Com os pés descalços, olhos vermelhos e sem calças, caminhou rumo a sala segurando o prato com seu pão com manteiga, pisando nos cacos, perdendo seu sangue e idolatrando a solidão.
                -É isso. Um homem não deve ficar sozinho, não por muito tempo. Esse ano arrumo um cachorro.

29 de dez. de 2011

Never Forget

                A calçada rachada era testemunha da apatia que eles sentiam pelo mundo. Eram rapazes comuns, com hábitos cruéis e sentimentos isolados. Não tinham muito que fazer.
                Batiam em alguma outra turma nas horas vagas.
                Pichavam muro pra matar o tempo livre.
                Enchiam a cara e fumavam maconha na pista de skate.
                Mas o que os unia de fato era o amor não correspondido por alguma mulher. Essa turma de jovens meliantes mantinha no peito guardado sob uma pedra, tão pesada quanto queriam que fosse, o mais nobre sentimento por alguém que já fora no passado uma donzela indefesa deflorada por algum crápula com o cu cheio de anabolizantes e cérebro capaz de fazer amebas se sentirem físicas quânticas.
                Alem do sentimento havia o silencio, quebrado inúmeras vezes por um violão, uma gaita, um trago de maconha e um gole de conhaque. Juventude transviada. É a conseqüência das mulheres na vida de jovens promissores.